Leituras da Bel

Ana encontra Xica

Ana Miranda, escritora

Ana Miranda, escritora

Por Renato Abê (renatoabe@opovo.com.br)

Em entrevista, a escritora cearense Ana Miranda, que lança Xica da Silva – A Cinderela Negra, destaca outros lados do mito em torno da escrava que virou “rainha”

Xica da Silva já foi construída e reconstruída por muitas mãos. Do cinema de Cacá Diegues à novela da Rede Manchete, muito já se falou sobre a ex-escrava que se tornou uma das mulheres mais ricas da então colônia de Portugal. A escritora Ana Miranda, porém, quis mergulhar mais fundo na vida da mulher por trás do mito e agora descortina, em quase 500 páginas no seu novo livro, outros lados da mesma personagem já conhecida.

Em Xica da Silva – A Cinderela Negra, a escritora cearense narra em detalhes verídicos (em alguns momentos com cores de ficção) quem foi a mulher, a mãe, a mecenas, a negra dona de escravos e a administradora por trás da figura conhecida. Em entrevista ao Leituras da Bel, Ana destaca a permanência da força de Xica em 2016: “Ela se destacaria em qualquer época e em qualquer sociedade”. 

Leituras da Bel – Ana, o que te surpreendeu na pesquisa para o livro que foge ao que costuma ser dito sobre a Xica?
Ana Miranda –
Surpreendeu-me nós termos uma relação de entendimento tão completo, a afinidade que eu sentia, a alegria de participar daquela vida tão rica. Enquanto escrevia o livro eu me tornava amiga da Xica e sentia como se ela estivesse abrindo segredos pra mim. Também foi surpreendente saber que havia outras Xicas na região, na época, levantadas pela historiadora Júnia Ferreira Furtado, que escreveu uma biografia da Xica, muito bem documentada. Pela primeira vez a Xica foi vista não como um mito, uma lenda, mas como figura histórica.

Leituras da Bel – Como se dá essa mescla entre ficção e biografia dentro da narrativa?
Ana – Tudo é provável ou possível, não considero que haja ficção nessa biografia, porque não inventei nada, não inventei personagens nem cenários, nem fatos. Mas o formato de narrativa ficcional aparece nos momentos em que eu imagino a cena da vida da Xica como deve ter sido, quando eu me socorro da imaginação. Essas partes estão todas em itálico, no livro. Foi a melhor maneira de recriar o cotidiano da Xica, uma vez que não há documentos de quase nada.

Leituras da Bel – Faz diferença que, dessa vez, uma mulher esteja contando a história dela?
Ana – Acho que as mulheres e os homens quando narram são, como dizia a Clarice, nem mulheres e nem homens: são mulheres e homens. Mas claro que há sempre a interferência da personalidade do narrador, do historiador, assim como há a interferência do tempo, cada época parece ter impresso questões políticas, éticas, na lenda da Xica, e ela se presta admiravelmente a encarnar todas as questões, por exemplo do feminismo, do machismo, da sexualidade, do racismo.

Leituras da Bel – Em algum momento houve receio quanto ao título “A Cinderela Negra” para não parecer romantização da vida dela?
Ana – Nenhum receio, achei o título perfeito para ela, que teve realmente uma história de Cinderela e ainda mais pungente, pois a opressão que a Xica teve de vencer ia muito além de questões familiares como a Gata Borralheira.

Leituras da Bel – Você acredita que a “sexualização” de algumas narrativas sobre a Xica acabou estigmatizando a imagem dela?
Ana –
Algumas pessoas de Diamantina contam que as babás ameaçavam as crianças sem sono ou agitadas dizendo que, se não dormissem, a Xica da Silva vinha para buscá-las. O estigma veio, sim, do medo que as pessoas sentem da mulher sensual, e mais ainda, da mulher poderosa. A sexualização, no caso do filme do Cacá Diegues, foi um gesto de redenção da personagem, pois ela se tornava, ali, uma libertária dos anos 1970, e uma mulher que não se dobrava às regras do bom comportamento branco e cristão.

xica-da-silva

Leituras da Bel – Você acha que ela continuaria se destacando tanto se vivesse no Brasil de 2016? As “Xicas” de hoje enfrentam lutas parecidas?
Ana –
Ela se destacaria em qualquer época e em qualquer sociedade, tinha a personalidade dos grandes seres humanos, mas foi privilegiada por viver numa sociedade e num tempo que lhe permitiram o belo trabalho de vitória social, o belo trabalho de promoção das artes e de conquista do amor de um homem poderoso, e mais rico do que o rei de Portugal. Era uma sociedade riquíssima, e uma época de esplendor, de formação. Tudo era mais significativo, mais nítido. Não existe na nossa história nenhum outro caso que se compare ao de Xica da Silva e que tenha tal força de significados. A luta das Xicas de hoje em dia é a mesma, e é a luta de mulheres e homens, uma luta pela construção pessoal, pelo reconhecimento, pela afirmação, e, sobretudo, pela conquista da liberdade.

Serviço
Xica da Silva – A Cinderela Negra, de Ana Miranda
518 páginas
Quanto: R$ 69, 90
Editora Record

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