Leituras da Bel

Coluna Cartas as poetas do nosso tempo: Patrícia Alves

Patrícia Alves (foto: divulgação)

Por Nina Rizzi*

quem tem medo de dandara?
quem tem medo da mulher que pixa?

patrícia, não há leitura que se faça de suas poemas sem que não te ouça. talvez seja uma espécie de sacrilégio ler e ouvir uma voz dentro da cabeça nos repetindo o que diz os olhos sem que esta voz seja a sua. e a sua voz é de uma força tamanha que talvez sempre que ler um chamado como esse de dandara ele venha na sua voz. patrícia, você é toda pixação. e sua performance não é bonitinha. porque não pode ser bonito os mortos amontoados de auschiwitz, esses mortos que são os mesmos da chacina da messejana, da candelária, da cláudia que sequer tem sobrenome, como uma nina sem-nome – como aqueles negros que arrancados de sua terra para servir de escravos nem mesmo direito ao nome, tão simbólico para eles, tinham – não pode ser bonitinha a performance que grita essa dor das gentes mais invisíveis.

eu fui ao cineteatro são luiz e fiquei muito envergonhada porque ao final do espetáculo as pessoas muito chiques e blasès saíram daquele monumento (imagine quantas mãos escravas para erguer um monumento de bárbarie!), e quando os moradores da praça do ferreira escorregavam pela praça que é a casa deles, as pessoas agiam como se eles fossem intrusos e a polícia se aproximava para proteger aquela gente intrusa dos verdadeiros donos daquele lugar. isso é uma rasura tão profunda num estado de coisas; e eu volto pra casa pensando em sua performance, que não é bonitinha porque os fodidos do mundo não são bonitinhos e causam repulsa à gente intrusa, a mesma que há séculos provoca genocídios em nome da civilização, da ordem e de qualquer falácia que atende uma beleza vazia como bibelôs na estante.

a vida da gente é pixação, viver sob o céu sem teto e terra e uma águinha é pixação, dançar um dança desordenada e bêbada nos reggae do serviluz é pixação. sobreviver quando nos querem mortos é pixação. parece ficção, mas não: ser gente e invisível é performance.

Patrícia Alves (foto: divulgação)

e também sei que uma poema assim, nada bonitinha e que sangra as verdades das ruas e dos sem-nome é pixação e é poesia sim. e sabemos os muitos doutores que latem lattes prontos a granir o que é e não poesia. essa sua pixação é poesia sim! nos arranca o couro numa feiura urgente, necessária e atemporal nesse agora, esse tempo e estado sombrio que pixa todos os tempos e estados são de exceção. pixação pura poesia seus versos-performance de dandara, de todas nós que não vamos mais parar a poesia-pixo.

Eu vejo na televisão
a violência assolar meu povo com prescrição
e ganhar nisso, o sistema, seu condão
RA-TÁ-TÁ-TÁ
Foi mais um
ladrão?

Mas quem criou essa lei de cão?
Que desmerece o favelado
e roga pelos patrão
que chega no reservado
e lava a calçada com o sangue dos meus irmãos
E se não tem deste, escorrendo nas feridas da chibata,
tem nas mãos

E se foi mais um dia
Quem vai se importar com o futuro da menina no sinal?
Sangrando nos meios das pernas
com a boca sufocada no pau

E dona Maria que lava roupa sem parar no quintal
guerreando todo dia em busca do ganha pão
De longe dá pra ver a desorientação do cidadão
que no corre obrigatório pelo capital
acaba esquecendo o valor do irmão

Hoje eu não vou falar das rosas, não
que a familía do neguim não teve dinheiro nem pro caixão
que dirá pra delicadeza tal
que nunca foi encontrada nos seus dias de pulsação

Patrícia Alves (foto: divulgação)

[Patrícia Alves é poeta e vive na periferia de Fortaleza, onde pixa & acontece nos saraus.]

*Nina Rizzi é escritora, tradutora e poeta. Tem textos publicados em revistas, jornais, suplementos e antologias. É também integrante do grupo Leituras Públicas. Gosta de saraus, de periferia, do Centro de Fortaleza e de eventos literários. Ela escreve mensalmente no blog Leituras da Bel sobre mulher e poesia.

 

 

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