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Leia entrevista com Ana Guadalupe, tradutora de Rupi Kaur no Brasil

Ana Guadalupe, tradutora de Rupi Kaur no Brasil

A escritora Ana Guadalupe recebeu uma responsabilidade imensa nas mãos: traduzir os textos de Rupi Kaur, indiana radicada no Canadá que virou febre mundial com o livro Milk and Honey. Seria a primeira publicação dos poemas no Brasil, que aqui ganhou o título de Outros Jeitos de Usar a Boca e foi editado pela Planeta de Livros. Sucesso editorial. Rupi conquistou uma legião de leitoras – e leitores! – no País. O livro foi vendido, compartilhado, lido, falado, emprestado. Os poemas ganharam alcance também nas redes sociais – com postagens, leituras, fotografias e outros mecanismos de veiculação da obra de Rupi.

Pouco depois do lançamento e do boom editorial, Ana Guadalupe, 32 anos, foi desafiada novamente com a tradução de The Sun And Her Flowers – segundo livro de Rupi. O volume – em português chamado de O que o sol faz com as flores – deve chegar as livrarias no início de março (ver serviço). Cercado de expectativas do mercado e do público, o segundo livro de Rupi Kaur encontrou uma tradutora mais experiente. Ana – que é natural de Londrina e mora em São Paulo – trabalhou em outros livros. Além disso, escutou a opinião de fãs e analisou a reação aos textos e à tradução. Ana Guadalupe respondeu algumas perguntas para o Leituras da Bel. Confira:

 

Leituras da Bel -Você acreditava que uma indiana escrevendo e provocando a sociedade com textos sobre temas tão especiais iria fazer sucesso no mercado brasileiro?
Ana – Imaginava que haveria um público interessado nesses temas, sim, mas realmente não imaginava o tamanho desse público e a emoção com que o livro foi recebido.

Leituras da Bel – O “Outros jeitos de usar a boca” é um dos maiores sucessos editoriais no mercado brasileiro em 2017, alcançando vários públicos e várias partes do país. Você se sentiu pressionada ao realizar a tradução do novo livro? A visibilidade alcançada pelo primeiro livro assustou você de alguma forma?
Ana – Pensei na visibilidade do livro, sim. O primeiro foi um trabalho que fiz sem muito alarde, tive sorte de ser convidada, e de repente vi que era muito maior do que tinha imaginado. Ao mesmo tempo, agora me sentia mais preparada como tradutora. Tinha mais experiência, mesmo, porque traduzi outros livros depois. E tinha acompanhado as reações aos textos e à tradução, a opinião dos fãs.

Antes da publicação dos livros, Rupi chamou atenção ao ter uma foto apagada pelo instagram. Conhecida como “foto da menstruação”, a imagem aqueceu uma série de discussões sobre corpo feminino

Leituras da Bel – Você poderia apontar as diferenças entre “Outros jeitos de usar a boca” e “O que o sol faz com as flores”?
Ana – Sem olhar, só de memória, acho que o livro novo tem mais poemas longos, que dão mais espaço pras ideias se desenvolverem — e que ficam ótimos nas apresentações de spoken word que ela faz. Nas temáticas, ela se volta mais para própria cultura, histórias da mãe e da família, experiências de outras mulheres.

Leituras da Bel – Você consegue encontrar uma razão (ou razões) para a poesia da Rupi ter atingido o “status de ícone” entre os brasileiros?
Ana – Acho que muita coisa colaborou. A força dos textos, o momento do feminismo no Brasil e até uma simpatia renovada pela poesia (será?). E a poesia da Rupi é acessível no bom sentido, apesar dos temas pesados, difíceis.

Leituras da Bel – Há uma velha máxima apontando que o “tradutor é um traidor”. Em algum momento, você se sentiu traidora da poesia de Rupi?
Ana –
Acho que sim. Ela trabalha muito com sons parecidos nos poemas, por exemplo, e nem sempre consegui recriar essa sonoridade em português. É difícil ficar satisfeita.

Rupi Kaur

Leituras da Bel – Há algum texto – do primeiro livro ou do segundo livro – que gostaria de ter traduzido de forma diferente?
Ana –
Tem um detalhe ou outro que tive vontade de mudar quando reli, sim. Mas ouvi falar que é natural.

Ana Guadalupe

Leituras da Bel – Você também é escritora e tem um trabalho muito respeitado no Brasil. Sente alguma aproximação da tua obra com a obra de Rupi? Consegue traçar conexões estéticas entre as poesias produzidas por vocês?
Ana – Não sou tão respeitada assim, risos, mas obrigada. Acho que temos em comum um vocabulário enxuto, não sei. Como ela, escrevo de um jeito que pode ser visto como espontâneo, apesar de nem sempre ser.

Leituras da Bel – A poesia é um agente libertador?
Ana – Acredito que sim, em vários sentidos. Gosto muito de acompanhar gente jovem que se surpreende ao descobrir que “gosta de poesia”. Pode ser o começo de tanta coisa, como foi pra mim quando era mais nova.

Leituras da Bel – Os tradutores – em especial, os tradutores de poesia – deveriam ser melhor considerados pelo mercado editorial? O profissional da tradução é negligenciado pelo mercado editorial?
Ana – Essa é uma pergunta difícil, porque comecei a traduzir literatura há muito pouco tempo. Antes de “Outros jeitos de usar a boca” só tinha feito tradução pra legendagem e por diversão. Acho que sim, que o tradutor é um profissional que investe muito esforço e poderia ter mais retorno, como tantos outros profissionais. Mas essa também é a profissão que eu gostaria de ter para o resto da vida.

Serviço
Outros Jeitos de Usar a Boca
Textos de Rupi Kaur
Tradução de Ana Guadalupe
Preço médio: R$ 29,90

O que o sol faz com as flores
Textos de Rupi Kaur
Tradução de Ana Guadalupe
Preço médio: R$ 34,90

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