Leituras da Bel

Coluna Ao pé do ouvido: Baladas para leitores e Eugênio Leandro

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Por Lilian Martins*
Dos bons encontros que a Literatura me trouxe, sem dúvida, um deles atende pelo nome de Eugênio Leandro (1958).  Cantor, compositor, instrumentista e escritor é dele a voz grave inconfundível, cuidadosamente harmonizada por composições de alto valor poético e de uma literatura “de uma profundeza de poço sem fim”, como afirma Nilto Maciel (1945-2014) na apresentação do livro: “A noite dos Manequins”, vencedor do Prêmio Moreira Campos da Secretaria da Cultura do Ceará em 2011.

Eugênio Leandro

Singular representante do cancioneiro cearense, o mesmo que fez lançar “O Pessoal do Ceará” na década de 1970, Eugênio Leandro bebe desta mesma fonte musical e vai além, nos apresentando músicas equalizadas por um minucioso trabalho estético. Nele, a conjuração letra e música é uníssono sinônimo de qualidade. Não à toa ser, este talento nosso, considerado entre os amigos e seus admiradores, o Chico Buarque cearense.

Seus primeiros discos são o LP “Além das frentes” (1986) e “Catavento” (1990). É desse período a composição “Consolança” em parceria com Oswald Barroso (1947) cujo título construído por aglutinação dos vocábulos “consolação” e “esperança” já demonstra a beleza do trabalho estético de seus versos:

Não chore não
Pois inda resta o sol
Banhando o milho
Seco no roçado
Iinda tem ruçara
Pra nos inquietar

Pedra se encontra
Ouvi alguém falar
Porque que um grande amor
Não pode se encontrar

 

Escute o álbum “Além das frentes” na íntegra:

Em 1996, lança o CD “A cor mais bonita” e no, ano seguinte, grava, com Xangai, Renato Teixeira, e Cida Moreira, o CD “Cantorias e Cantadores”, cujo repertório incluiu a canção “Presente” em parceria com o cineasta Rosemberg Cariry.

Ouça “Presente”: 

Eugênio Leandro também imprime uma interpretação própria para canções já popularmente conhecidas na voz de seus intérpretes. É o caso, por exemplo, de “Sem eira nem beira”, música de Evaristo Filho e Edmar Gonçalves, interpretada por Eugênio para o DVD “Evaristo Filho 20 Anos”, confira no link:


Em 2001, lança o CD “Castelo encantado” uma homenagem a literatura brasileira. Entre o repertório estão as composições: “Me diz”, em parceria com Kátia Freitas, “Coqueiro do Atlântico Sul”, com Petrúcio Maia, “Noite” e “Tô lá no mar”, ambas de David Duarte, “Enquanto a cidade dorme”, de Rafael Torres e Alan Mendonça, “Pretexto” de Álcio Barroso e Amaro Penna e “Não me deixes” sobre poema de Gonçalves Dias:

Coqueiro do Atlântico sul 
Na paz do mundo mundo 
Num dia de muito azul 
Bebi o céu eo mar 
Com sede do infinito

Coqueiro do Atlântico Sul 
Na paz do seu mundo verde 
Em um dia muito azul, 
bebi o céu e o mar 
Com sede infinita

Eugênio Leandro

Ao lado do poeta Márcio Catunda são 40 anos de parceria lítero-musical. Os dois são amigos desde a formação do Grupo Siriará de Literatura em 1978. Para celebrar este profícuo encontro, os dois promoveram, em 2016, um duplo lançamento: o CD Escrito nas Jangadas, de Eugênio Leandro, e o livro “Viagens Instrospectas” (Expressão Gráfica Editora), de Márcio Catunda.  O álbum conta com participações especiais de Clarice Trummer (filha de Eugênio), Fernando Néri, Izaíra Silvino e Nonato Luiz. No mesmo ano, Eugênio Leandro foi um dos agraciados pelo Prêmio Grão de Música com a canção “Tonta Saudade” em que fala de um amor desfeito entre livros e um poema de Drummond:

…tantos livros na estante

e acabo folheando
o coração
que revê seus seios fartos
que alumiaram meu quarto
com o viço quente e cálido
da paixão.

 

Ao longo de mais de quatro décadas, Eugênio Leandro, desbrava moinhos de adversidades ventanejando cataventos multicores para que os novos ares das novas gerações conheçam este destemido artista colecionador de premiações, músicas e livros lançados entre contos (A noite dos Manequins/Expressão Gráfica) e literatura infantil (As Moradoras do Céu/IMEPH e Livro-Passarinho/IMEPH). Para além das frentes, o futuro “tá tudo preso aqui no coração”!

Aumenta o som e boas leituras!

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*Lílian Martins é jornalista, tradutora, professora, pesquisadora e militante em Literatura Cearense. Mestre em Literatura Comparada pela UFC com a dissertação: “Com saudades do verde marinho: O Ceará como território de pertencimento e infância em Ana Miranda”, vencedora do Prêmio Bolsa de Fomento à Literatura da Fundação Biblioteca Nacional e Ministério da Cultura (2015) e do Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) em 2016. É uma apaixonada por rádio, sebos, pelos filmes do Fellini, os poemas de Pablo Neruda e outras velharias…

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