Leituras da Bel

“O movimento da escrita acontece de forma solitária”, diz Tércia Montenegro

A escritora cearense Tércia Montenegro vai lançar Em Plena Luz, romance ambientado entre Fortaleza e Paris. Em entrevista ao blog Leituras da Bel, ela fala sobre processo de escrita e os detalhes da nova obra – que é uma publicação da editora Companhia das Letras. A escritora nasceu em 1976, em Fortaleza, onde vive atualmente. É fotógrafa e professora da Universidade Federal do Ceará. Seu primeiro romance, Turismo para cegos, publicado pela Companhia das Letras, foi selecionado pelo Programa Petrobras Cultural e recebeu o prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Nacional, de melhor romance brasileiro de 2015. Tércia também é autora de O Vendedor de Judas, O tempo em estado sólido, Os Espantos e Dicionário Amoroso de Fortaleza. Leia a entrevista completa:

Leituras da Bel – O quanto escrever também vem de uma ordem sensorial?
Tércia Montenegro – Escrever é, para mim, um processo absolutamente sensorial, sinestésico mesmo. O visual sempre teve uma força muito grande como impulso para as minhas narrativas, mas neste livro – pelo fato de a protagonista praticar também a escultura – houve uma presença maior do táctil, do olfativo: a textura e o cheiro da argila invadem algumas cenas. É como se a modelagem do romance se fizesse dessa maneira, híbrida por vários sentidos.

Leituras da Bel – Esse é o seu segundo romance e vem carregado por muita expectativa dos leitores. Isso mobilizou você durante a escrita?
Tércia Montenegro – O movimento da escrita acontece de forma solitária. Quando estou criando, eu me sinto sozinha numa ilha rodeada de palavras. Tem de ser assim, para que a história aconteça e se expanda livremente, sem interferências de fora. Afinal, o propósito primordial de fazer arte é habitar esses espaços vazios, ver como eles podem ser tomados por uma estética. Somente depois – quando a narrativa já está pronta, já chegou à editora – eu começo a pensar no livro enquanto objeto que vai acabar nas mãos do(a) leitor(a). É um momento completamente diferente; talvez seja como gestar e parir. A gestação é mais lenta e invariavelmente íntima.

Tércia Montenegro

Leituras da Bel – Como os cheiros de Paris são diferentes dos cheiros de Fortaleza?
Tércia Montenegro – Não apenas os cheiros, mas sobretudo as cores, as luzes, os ruídos, o ritmo… Toda experiência numa outra cidade (e mais ainda, em outro país) pode gerar um processo de autoconhecimento profundo: os deslocamentos produzem estranhezas e reconhecimentos inesperados; a maneira como (re)aprendemos a nos relacionar com pessoas de uma cultura diversa aponta para hábitos que temos e às vezes sequer notamos. Viajar recupera, nesse sentido, um pouco da sensação de descoberta infantil: o mundo volta a nos surpreender. O ideal seria que nos surpreendesse sempre, e pudéssemos lembrar que afinal cada dia é um milagre, por mais que pareça mera rotina. Nessa perspectiva, inclusive os cheiros, cores ou ruídos de Fortaleza em si são sempre novos, embora tão sutilmente novos, que a mudança passa desapercebida.

Leia trecho de Em Plena Luz!

Leituras da Bel – Em Plena Luz é um livro de otimismo?
Tércia Montenegro – Eu o sinto dessa maneira, sim. É um livro que trata de terrorismo, de relacionamentos abusivos e fugas, mas apesar disso há guinadas de humor – seja pela absurda atitude de algumas pessoas, seja pelos lances bizarros do destino. Tudo isso mostra a vida como uma aventura que não pode ser encarada de modo estritamente planejado ou rigoroso, sob pena de se perder as melhores experiências, que passam pelo improviso e pela celebração das amizades.

Tércia Montenegro

Leituras da Bel – Como a violência e o atentado terrorista que se passou em Paris moveram as jogadas de Lu?
Tércia Montenegro – Em plena luz questiona de maneira implícita diversos tipos de violência, e o que me interessava era justamente saber se era possível comparar uma coisa discreta – digamos, a violência de um jogo de mentiras num relacionamento amoroso – com uma violência escancarada, de um atentado terrorista ou de um discurso de ódio contra imigrantes. Por mais que vejamos diversos níveis traumáticos advindos dessas situações, em todos os casos as pessoas têm um idêntico impulso de se salvar, de fugir do elemento agressor. E no caminho da fuga podem, inclusive, acontecer muitas coisas boas e interessantes.

Serviço
Lançamento do livro Em Plena Luz
De Tércia Montenegro
Editora Companhia das Letras
Quando: sábado, 28 de setembro
Horário: 15 horas
Onde: Museu da Fotografia (Rua Frederico Borges, 545)
Preço do livro: R$ 69,90
Haverá sessão de autógrafos
Entrada gratuita
***

Recomendado para você