Plínio Bortolotti

Goleiro Bruno/Eliza Samúdio: o que é relevante no caso?

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O que é mais relevante no caso do goleiro Bruno, suspeito de matar Eliza Samúdio, sua ex-namorada. Os aspecto moral envolvido na qauestão ou as “perdas” materiais que o goleiro terá pela “burrada” que o acusam de ter feito?

Esse é o questionamento da professora Sandra Helena de Souza no artigo que publicou na edição de hoje (14/7/2010) no O POVO.

Para ela, em vez de se debater as razões que levam a hediondez de um crime, “todas as conversas, entrevistas, editoriais, giram em torno do que o assassino, suspeito vá lá, vai deixar de ganhar, no montante de seu prejuízo econômico, na sua burrada, na sua estupidez, por assim dizer”.

Outro trecho: “Mas continuo curiosa: gostaria de ver o olhar do ‘menor’ que entregou o caso. Consta que ele está aterrorizado com o que viu, chora copiosamente nos depoimentos, vê o fantasma de Eliza. Não consegue conviver com o que fez. Também gostaria de saber se ele acredita em Deus. Se não, e sua confissão não é uma armação da quadrilha, estamos diante do único sujeito moral dessa estória. Ele sofre e não porque não vai estar na Copa de 2014.”

Escândalo

Quem também está tendo um comportamento “moral” é a produtora Brasileirinhas, de filmes pornôs, um deles realizado com Eliza Samúdio em 2006. A produtora vai processar camelôs do Rio de Janeiro que estão vendendo o filme.

Veja o que disse à revista Terra Magazine a representante da Brasileirinhas, Patrícia Soares:

“Nós, que temos os direitos dos filmes, simplesmente decidimos não comercializá-lo mais. Muita gente liga, consumidor final, querendo os filmes, sabendo que são nossos. Infelizmente, a procura aumentou muito, uma procura sem nexo. Cada um que liga, perguntando pelas produções, eu falo que gosto mais ainda do meu cachorro. Tivemos também o problema da Leila Lopes (ex-atriz global), que fez alguns filmes para a Brasileirinhas e depois acabou se suicidando. Foi uma tragédia, uma coisa muito chata. E nós também retiramos o filme dela. Agora, com a Eliza está sendo a mesma coisa. Não vamos ganhar dinheiro com uma atrocidade dessa.”

  • Leia o artigo da professora Sandra Helena.

Não matarás
Sandra Helena de Souza

No conhecido romance Crime e Castigo, Dostoievski põe em cena o tormento de um assassino dominado pela culpa. Seu protagonista agoniza de dor moral e acaba por entregar-se. O russo parecia, por sua vez, estar atormentado com a aurora de um novo tempo sem Deus: como fazer a culpa, a vergonha, o remorso entrar no coração dos homens? Como nos autovincular moralmente, sustentados apenas na ideia de uma autoconsciência presente, a mesma, em todos os homens?

A razão não pareceu, nesse século que nos separa, um substituto tão eficaz, do ponto de vista moral, quanto o temor a Deus. Temor travestido de amor. Nietzsche percebeu como poucos a enrascada em que nos metemos ao assassinar o próprio Deus. Não estaríamos jamais à altura do ato que praticamos, pois tiramos o eixo do mundo. Em dias recentes Woody Allen, no magnífico Match Point, coloca seu protagonista lendo Crime e Castigo, para, ao final, depois de tornado assassino, consentir intimamente com a sorte de não ter sido apanhado. Sutil ironia do gênio. Cita Dostoievski, no contrapé, para nos dizer que ele tinha mesmo razão. A morte de Deus é também a morte de uma certa ideia de homem, o que é capaz de sofrer com o mal que ele próprio pratica e de não suportar a dor moral que isso provoca.

Lembro de, na infância, quando ainda acreditava, imaginar o sofrimento atroz dos criminosos. Uma curiosidade mórbida me fazia imaginar o olhar dos assassinos, perdido, vagando entre os fantasmas de suas maldades. Nada podia ser pior do que isso, ser um assassino, tirar a vida de alguém. Na minha primeira visita ao presídio, o percurso de praxe das disciplinas de Sociologia do começo dos 80, pedi para ver um assassino. Queria ver seu olhar.

Hoje, depois de tantos casos terríveis de assassinato estampados pela TV, fico imaginando o que as crianças imaginam. Elas não precisam mais imaginar o olhar. Ele está lá, na maioria das vezes, firme, altivo, quase orgulhoso. O caso da vez é emblemático. Todas as conversas, entrevistas, editoriais, giram em torno do que o assassino, suspeito vá lá, vai deixar de ganhar, no montante de seu prejuízo econômico, na sua burrada, na sua estupidez, por assim dizer.

Por mais que se fale da hediondez do caso, que envolve cães de raça, ex-policial com ares fascistóides, narcotráfico, orgias, não há seguramente nenhuma incursão no aspecto moral da questão. Para substituir Deus e seus demônios, temos os neuro, os psi, os sociais, os culturais, mas o aspecto moral passa ao largo. Em filosofia moral costuma-se dizer que o “não matarás” é como que uma regra de ouro, presente em todas as culturas humanas. Só se pode matar sob condições bem estipuladas. O que vemos acontecendo ao nosso redor é a refutação mais rotunda dessa tese.

Mata-se cada vez mais, por qualquer motivo, banalmente, cotidianamente.

Mas continuo curiosa: gostaria de ver o olhar do “menor” que entregou o caso. Consta que ele está aterrorizado com o que viu, chora copiosamente nos depoimentos, vê o fantasma de Eliza. Não consegue conviver com o que fez. Também gostaria de saber se ele acredita em Deus. Se não, e sua confissão não é uma armação da quadrilha, estamos diante do único sujeito moral dessa estória. Ele sofre e não porque não vai estar na Copa de 2014.
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Sandra Helena de Souza – Professora de Filosofia e Ética da Universidade de Fortaleza
sandraelena@uol.com.br

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