Plínio Bortolotti

Sobre o jornalista “independente” da Dinamarca: “A Copa e os ‘gringos'”

Artigo publicado na edição de hoje (17/4/2014) do O POVO.

A Copa e os “gringos”
Plínio Bortolotti

A carta é vazada em tom um tanto colonialista, do europeu do norte que fantasia um país exótico, onde pensa encontrar o bom selvagem. Porém, ao chegar ao país “maravilhoso”, onde quer ver o maior campeonato do mundo de futebol, ele se decepciona, pois “descobre” que várias perversidades estão sendo cometidas “por causas de pessoas como eu (ele)”.

“A Copa – Uma grande ilusão preparada para os gringos” é o texto que Mikkel Jensen, “jornalista independente da Dinamarca”, publicou no Facebook, lamentando que seu sonho tenha se transformado em “pesadelo”. O artigo obteve repercussão nas mídias sociais, sendo destaque em portais de notícias da Internet. Jensen, é fato, aborda alguns problemas reais relacionados à Copa.

Porém, no trecho mais forte, sobre Fortaleza, ele diz ter conhecimento que muitas crianças de rua estão “desaparecidas” e que “muitas vezes são mortas quando estão dormindo em área com muito turista”, relacionando isso diretamente a uma política “para deixar a cidade limpa para os gringos e a imprensa internacional”. Jensen usa ponto de interrogação na frase, porém, a pergunta é meramente retórica, isto é, feita para soar como afirmação.

Quando um jornalista revela episódio de tamanha gravidade, supõe-se que investigou o assunto e tem como fazer prova. Porém, duvido que Jensen possa fazê-la.

Liguei para algumas entidades de proteção à criança: todas elas fizeram críticas veementes à omissão dos governos em garantir os direitos mais básico desse segmento. E que, devido ao descaso, adolescentes ficam submetidos a situações degradantes, e vulneráveis ao apelo das drogas e do crime, morrendo assassinados em conflitos que poderiam ser evitados. Porém, nenhuma das entidades relacionou as mortes a uma suposta “limpeza” devido à Copa.

PS. Deixo claro que nada tenho contra críticas de quem quer que seja: de brasileiro, de estrangeiro ou de marciano; xenofobia não é comigo. Trata-se de exigir um mínimo de precisão de quem se qualifica como jornalista.

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