Plínio Bortolotti

Taxistas e jornalistas terão robôs como colegas de profissão

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 27/9/2015, do O POVO.

Taxistas e jornalistas terão robôs como colegas de profissão
Plínio Bortolotti

A primeira ideia que me veio à cabeça com a greve dos taxistas contra o aplicativo Uber foi a dos luditas. O ludismo foi um movimento operário, no início do século XIX, que se revoltou com a introdução da tecnologia na indústria têxtil – e seus militantes ficaram conhecidos por invadir fábricas para destruir as máquinas de tecelagem.

O manifesto taxista é contra a tecnologia que permite aos passageiros contratarem um chofer, fora da corporação dos motoristas (e donos) de táxi, via aplicativo no celular. Os taxistas podem dizer que se opõem ao Uber porque a empresa (sim, por trás do inocente aplicativo há uma megaempresa) não paga impostos como eles, etc. Porém, não houvesse o dispositivo, os taxistas ainda teriam essa concorrência – da qual nunca reclamaram, pois em grau menor: frotas de automóveis, com motoristas particulares à disposição de quem paga, são tão antigas quanto os táxis.

Os taxistas vão ficar mais insatisfeitos ainda ao saberem que o Uber e outras empresas já testam carros sem motorista, para oferecer o serviço totalmente automatizado. Brevemente esses esses veículos, pilotados por máquinas, rodarão na Inglaterra – e o governo britânico já atualiza placas de trânsito para adaptá-las aos carros sem motorista (humano).

Porém, infelizmente (ou felizmente, dependendo do ponto de vista), há outras profissões que serão atingidas em cheio pelas novas tecnologias. Entre elas o jornalismo.

Estão cada vez mais bem resolvidos os softwares que coletam dados e os transformam em textos. Em pouco mais de uma década, o trabalho estará aperfeiçoado ao ponto de dispensar humanos da tarefa, segundo reportagem publicada na BBC Brasil. Para Kristian Hammond, cientista da Narrative Science, plataforma de conteúdo automatizado, em 15 anos, 90% das notícias serão redigidas por máquinas.

Ele ressalva que isso não vai reduzir, necessariamente, a força de trabalho da categoria em 90%: “Significa que os jornalistas vão poder ampliar seu campo de atuação. O mundo das notícias vai se expandir”; mas, diz ele, quando se tratar de reportagens a partir de dados, “tudo será feito por máquinas”.

Porém, há mais profissões “ameaçadas”, além de taxistas e jornalistas. A previsão da consultoria Boston Consulting Group é que por volta de 2025, até um quarto de todos os empregos serão substituídos por softwares ou robôs.

A questão é o que fazer com o tempo livre. Descartar-se-á o “excedente” humano ou as horas antes utilizadas no trabalho serão destinadas a elevar o espírito humano?

A depender do modelo de sociedade na qual estamos – em que levas emigrantes vagam pela Europa, encontrando muros, cercas e a morte; com muitas regiões da África condenadas ao esquecimento; e a miséria aumentando em tudo o mundo -, o futuro talvez seja mais parecido com alguns filmes de ficção científica, que apresentam um mundo radicalmente divido entre uma pequena elite e milhões de desesperados, afundados na barbárie. Como em Elysium, no qual a terra transforma-se em um imenso lixão, enquanto a elite mora em uma espécie de resort no espaço. Em ambos, robôs e a inteligência artificial sãos protagonistas.

No mais, o avanço da tecnologia é uma variável sempre presente na história, e que nunca foi detida – e talvez não deva, mas é preciso garantir que permaneça firmemente sob o controle humano.

NOTAS

Sob ameaça?
Sua profissão não está ameaçada se nela houver estas exigências: negociar, ajudar os outros, apresentar ideias originais. Porém a automação a põe em risco se tiver estas características: necessidade entrar em espaços apertados, montar objetos, manipular pequenos objetos.

Perigo
Cientistas importante apontam o perigo de a inteligência artificial cair no descontrole. Stephen Hawking, por exemplo, alerta: “O desenvolvimento da inteligência artificial total poderia significar o fim da raça humana”.

Luditas
“Ludita” ou “ludista” deriva do nome “Nedd Ludd”, com o qual os militantes do ludismo assinavam seus manifestos. É incerto se o personagem de fato existiu ou foi uma criação dos movimento operário inglês.

Créditos
Quais profissões estão ameaçadas pelos robôs?; Cinco motivos para termos medo da inteligência artificial; Inteligência artificial pode destruir a humanidade.

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