Plínio Bortolotti

Ferir a democracia com “pedaladas” foi má ideia

Reprodução de artigo publicado na editoria de Política, edição de 19/5/2017 do O POVO.

Ferir a democracia com “pedaladas” foi má ideia

Vendeu-se a ilusão de que bastava aprovar o impeachment da presidente Dilma Rousseff para que todo mal fosse afastado, e que o País passaria a navegar em águas calmas, tanto na política como na economia. Hoje, talvez, o mais entusiasta dessa ideia tenha percebido que ferir a democracia com as pedaladas não tenha valido a pena. (Exclusive, por óbvio, aqueles que, pelo menos momentaneamente, se beneficiaram com a conspiração, pois almejavam usar o poder para “estancar a sangria” da Lava Jato.)

Como poderia dar certo um governo que prometia um ministério de notáveis, mas se apequenou de início nomeando auxiliares de pouca qualificação, sendo que, alguns deles logo começaram a ser alvejados por denúncias de corrupção e outros malfeitos? Caíram oito ministros em 12 meses de governo; dos que permanecem, outros oito são investigados no STF, no inquérito da Lava Jato.

Quanto às “pedaladas”, declarações do próprio Michel Temer, já exercendo a Presidência da República, desmoralizaram essa tese. Em entrevista à Band TV, ele disse que Dilma sofrera o impeachment pelo fato de o PT não ter ajudado o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a livrar-se de um processo no Conselho de Ética. Em ocasião anterior, Michel Temer já dissera que Dilma começou a cair quando se recusou a encampar o programa apresentado pelo PMDB chamado “Uma ponte para o futuro”.

Está claro que um presidente pode e deve ser afastado do cargo se cometer crime de responsabilidade. Mas, nas palavras do próprio beneficiário do golpe, não foi isso o que aconteceu. As pedaladas foram uma cortina de fumaça para fazer transitar um plano adrede preparado.

Portanto, diferentemente do que diziam (ainda dizem?) os partidários do impeachment, o afastamento da presidente não revela a saúde da democracia brasileira – pelo contrário, mostra sintomas de uma enfermidade. Entre esses sintomas, está a dificuldade de uma certa elite política em aceitar a derrota nas urnas e a certeza de que somente eles têm o direito, talvez divino, de governar o País. Em 2014, mal concluída a contagem de votos, o PSDB entrou com um processo de cassação do registro da chapa Dilma/Temer, pedindo para que Aécio Neves, o derrotado, fosse empossado no lugar da presidente reeleita.

Seguiu-se um cerco ao mandato da presidente, com um Congresso hostil, “pautas-bomba”, recusa a qualquer projeto de interesse do Executivo, tudo fermentando uma conspirata da qual participava seu próprio vice. É claro que Dilma, com sua proverbial falta de paciência para lidar com parlamentares, a condução errática da economia, além do desenrolar da operação Lava Jato, atingindo cada vez mais o PT, contribuíram para o desfecho que lhe cassou o mandato.

Porém, todas as marcas da corrupção da qual se acusava o PT e o governo Dilma, estavam evidentes no grupo que iria sucedê-la, como está sendo provado. Por que ninguém dos defensores do impeachment atentou para isso? Simples: ninguém queria saber e nem esse foi motivo do afastamento de Dilma.

Se Temer cair, como tudo indica, o Brasil terá dois presidentes afastados com diferença de apenas um ano. Será o terceiro após a redemocratização. A boa notícia é que, apesar dos ataques que sofre, a democracia vem resistindo aos testes que se lhe impõem. E, somente preservando e aperfeiçoando o regime democrático é que os graves problemas pelos quais passa o País poderão ser superados.

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