Plínio Bortolotti

Disputa entre “olavetes” e militares deixará sequelas negativas para as Forças Armadas

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Se há alguém pensando que o post hoje (7/5/2019) despachado pelo presidente Jair Bolsonaro no Twitter vai acalmar a relação entre os “olavetes” (aqui incluso o próprio Bolsonaro e seus filhos) e a “ala militar” do governo, está enganado. O presidente escreveu hoje:

“Cheguei na Câmara em 1991 e encontrei-a tomada pelo esquerda num clima hostil às Forças Armadas e contrário às nossas tradições judaico-cristã. Aos poucos outros nomes foram se somando na causa que defendia, entre eles Olavo de Carvalho. Olavo, sozinho, rapidamente tornou-se um ícone, verdadeiro fã para muitos. Seu trabalho contra a ideologia insana que matou milhões no mundo e retirou a liberdade de centenas de milhões é reconhecida por mim. Sua obra em muito contribuiu para que eu chegasse ao Governo, sem a qual o PT teria retornado ao Poder. Sempre o terei nesse conceito, continuo admirando Olavo. Quanto aos desentendimentos ora públicos contra militares, aos quais devo minha formação e admiração, espero que seja uma página virada por ambas as partes. Jair Bolsonaro/Presidente da República.” (Reproduzido literalmente, inclusive com os muitos erros de português.)

A disputa entre os dois grupos sempre existiu, e a treta  começa a partir dos Estados Unidos – local de moradia de Olavo de Carvalho – de onde ele expede seus torpedos contra militares. O mínimo que ele diz das Forças Armadas é que elas fizeram “cagada” e entregaram o país “aos comunistas”. Seria apenas risível – uma simples palhaçada, equivalente a considerar a terra plana -, se o próprio presidente e seus filhos não comprassem essa tese ridícula, à qual somente malucos podem dar credibilidade.

Mas Olavo não fica apenas na crítica. O seu estilo é sustentado por uma saraivada de palavrões, com preferência – os psicanalistas talvez expliquem – pelo vocábulo “cu”. Ele usa à larga termos obscenos para xingar aos generais que fazem parte do governo.

Agora, os olavetes estão em verdadeira cruzada para derrubar o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, chefe da Secretaria de Governo. Esse auxiliar direto de Bolsonaro já recebeu os seguintes qualificativos de Olavo: “mentalidade porca”; “não é homem nem para ler o que eu (Olavo) escrevo”; “seu merda”. O general Eduardo Villas-Bôas, assessor do Gabinete de Segurança Institucional, saiu em defesa de Santos Cruz e da ala militar do governo, chamando Olavo de “desocupado” e recebeu esta resposta do guru da família Bolsonaro:

“A quem me chama de desocupado não posso nem responder que desocupado é o cu dele (do general Villas Bôas), já que não para de cagar o dia inteiro”. Além da linguagem rebaixada, Olavo faz referência preconceituosa ao general, que tem uma doença degenerativa que o obriga a usar uma cadeira de rodas e ventilação mecânica.

Mas o ponto ao qual eu quero chegar é o seguinte, conforme post que divulguei ontem (6/5/2019), às 15h43min, na minha conta do Twitter:

“Talvez agora militares percebam porque não devem se envolver em política. As Forças Armadas não escaparão sem danos do naufrágio do governo Bolsonaro.”

A partir do segundo mandato da presidente de Dilma Rousseff houve politização dentro das Forças Armadas, especialmente do Exército, com alguns de seus principais generais dando-se o direito de criticar o governo e de fazer declarações políticas. Entre eles Hamilton Mourão, que veio a ganhar o cargo de vice-presidente.

Quem também entrou na onda, foi o então comandante do Exército, general Villas Bôas. Às vésperas do julgamento de um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF), que poderia evitar a prisão do ex-presidente Lula, Villas Bôas fez uma espécie de alerta, via Twitter, dizendo haver “anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição”, óbvia referência ao que ele esperava do julgamento, ou seja, uma decisão contra Lula. Depois da eleição de Bolsonaro, foi brindado com o cargo de assessor do Gabinete Institucional.

E assim, os militares foram se espalhando pelas principais áreas do governo, e hoje devem somar uma centena em cargos do primeiro ao terceiro escalões, ao ponto de constituírem um corpo especial no centro do poder. Para o “mercado” e para os setores liberais,os generais tornaram-se uma espécie de “garante” do governo Bolsonaro, que poderiam conter os rompantes mais bizarros do capitão.

A tarefa torna-se cada vez mais difícil, pois capitão não parece disposto a deixar-se mandar pelos generais, e continua fiel seguidor de Olavo de Carvalho, como o próprio presidente deixa claro no twitter reproduzido acima: ele usa 99 palavras para traçar sua trajetória e elogiar Olavo; sete palavras para falar de sua “admiração” pelos militares e 17 para pedir que as partes considerem o episódio como “página virada”.

O presidente desobriga-se de defender os seus ministros, e nem ao menos faz reparos à forma desrespeitosa como Olavo de Carvalho refere-se aos generais, à base de xingamentos e classificando-os de “traidores”, que impediriam o presidente de levar à frentes sua proposta de combate ao “comunismo” e outros fantasmas agitados pela extrema direita.

O que resta agora aos generais no governo? Continuar sofrendo humilhações e assistindo ao presidente estimular ataques contra eles? Entregar seus cargos? Por outra vista: tomará Bolsonaro a decisão de demiti-los? Existe ainda a possibilidade de o presidente conseguir pacificar a situação, porém, essa é a hipótese mais remota. De qualquer modo, as Forças Armadas pagarão um preço alto, em termos de credibilidade, qualquer que seja o desfecho dessa guerrilha que opõe os dois grupos.

Quem sabe, isso leve à reflexão alguns generais que, ainda na ativa, lançaram-se à aventura política e, mal tendo postos os pés fora dos quartéis, agarrarem-se a cargos no governo do capitão Jair Bolsonaro, pelo qual também passaram a ser responsáveis.

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