Plínio Bortolotti

Somente a extrema direita bolsonarista saiu às ruas

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É inócuo discutir qual manifestação foi maior, se a dos estudantes em 18 de maio – contra o corte de verbas para a educação – ou dos defensores do governo do presidente Jair Bolsonaro, realizadas no dia de hoje (26/5/2019). Ainda que os protestos a favor do governo tenham sido menores, é preciso reconhecer que houve expressiva participação, mostrando que o governo e as hostes bolsonaristas ainda têm poder de mobilização.

De certa forma, Bolsonaro conseguiu conter, em parte, seus bolsões “radicais porém sinceros” e as palavras de ordem pelo fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF) tiveram papel secundário nos protestos a favor, porém entraram na dança. O próprio Major Olímpio, líder do PSL na Câmara, no ato da avenida Paulista (São Paulo) ameaçou o Supremo: “O STF que nos aguarde”, gritou, em cima do carro de som, segundo o jornal Valor. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também foram ofendidos diretamente por manifestantes, o que pode ter consequências na já avalada relação com o governo.

Mas é preciso lembrar que o setor do bolsonarista que ainda resguarda algum sentido de institucionalidade, como o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem pra Rua – decisivos nas manifestações que contribuíram para o impeachment da presidente Dilma Rousseff – não quiseram misturar-se com a turba. Sem falar na deputada estadual Janaína Pascoal (PSL-SP) e outros bolsonaristas de primeira hora, que estão caindo fora do barquinho. O Partido Novo também optou por ficar distante das passeatas, apesar de ser a ponta de lança do bolsonarismo na reforma da Previdência, uma das reivindicações dos manifestantes.

Quem saiu às ruas, portanto, foi o setor mais radicalizado do bolsonarismo, a extrema direita, que configura-se como uma espécie de seita, que cultua o deus Olavo de Carvalho e segue o seu profeta, Bolsonaro, ainda que ele se jogue no abismo. Esse segmento estará sempre disposto a seguir as ordens do “mito”.

O fato a saber é quais serão as consequências; se o resultado das manifestações será positivo para Bolsonaro, se vai piorar ou se nada muda em seu relacionamento com o Congresso. E, ainda, se a exemplo do que faz Nicolás Maduro na Venezuela, ele vai desconsiderar o Congresso Nacional, apostando em um governo com apelo direto às ruas.

Pelos dados hoje disponíveis, a possibilidade de o Centrão recuar e de Rodrigo Maia passar a se submeter a todas as vontades de Bolsonaro parecem remotas. O mais provável é que a Câmara queira demonstrar musculatura e a coisa permaneça no mesmo vai e vem que caracteriza a relação do Legislativo com o Executivo. Será interessante observar também se os atos a favor do governo terão efeito positivo na popularidade de Bolsonaro, que vem caindo de forma rápida e consistente, desde que ele assumiu o governo.

Para a quinta-feira, 30 de maio, está marcada outra manifestação convocada por professores e estudantes em defesa da educação.

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