Sincronicidade

Ser brasileiro ou O paradoxo como identidade

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Gilberto Freyre seria o mestre do equilíbrio dos contrários. Sua obra está perpassada por antagonismos. Mas dessas contradições não nasce uma dialética, não há a superação dos contrários, nem por consequência se vislumbra qualquer sentido da História. Os contrários se justapõem, frequentemente de forma ambígua, e convivem em harmonia.
Fernando Henrique Cardoso
[Um livro perene. Apresentação a Casa Grande e Senzala. Gilberto Freyre. 51a. ed. São Paulo: Global, 2006, p. 23.]

 

Há muitos anos venho indagando a mim mesmo sobre o que significa ser brasileiro. Quando digo sou brasileiro, mais que declarar minha filiação ao Brasil, estou afirmando uma identidade. Mas o que é, exatamente, essa identidade? A questão tem me inquietado e mexido comigo ao longo de muitos anos. Não são poucos os estudiosos, tanto brasileiros quanto estrangeiros, que têm se aventurado a oferecer uma possível resposta para a questão.

Um dos primeiros foi Gilberto Freyre. Num texto anterior, postado neste blog,  mencionei rapidamente este grande pernambucano por quem nutro uma grande admiração, ao me referir à visita que fiz a Apipucos. Seguramente retornarei muitas vezes a este estudioso da alma brasileira neste blog. Hoje gostaria de citar um pequeno texto poético em que Gilberto Freyre descreve a si mesmo. O faço por considerar que, nele, o autor de Casa Grande e Senzala, ao descrever a si mesmo, resume a essência do que, parece-me, significa ser brasileiro: o paradoxo. Penso que nada caracteriza melhor a alma brasileira do que o paradoxo. Parece-me que, ao falar de superposição das contradições em Gilberto Freyre, Fernando Henrique, sem que cite a palavra, está se referindo ao paradoxo. Esse aspecto se destaca sobremaneira na descrição que o sociólogo pernambucado faz de si mesmo. Ao falar de si, ele resume o ser brasileiro:

“Se me perguntarem quem sou, direi que não sei classificar-me. Não sei definir-me. Sei que sou um ‘eu’ muito consciente de si próprio. Mas esse ‘eu’ não é um só. Esse ‘eu’ é um conjunto de ‘eus’. Uns que se harmonizam outros que se contradizem. Por  exemplo, eu sou, numas coisas, muito conservador e, noutras, muito revolucionário. Eu sou um sensual e sou um místico. Eu sou um indivíduo muito voltado para o passado, muito interessado no presente e muito preocupado com o futuro. Não sei qual dessas preocupações é maior em mim. Mas todas elas como que coexistem e até me levaram a conceber uma idéia de tempo, porventura nova: a do tempo tríbio. A de que o tempo nunca é só passado, nem só presente, nem só futuro, mas os três simultaneamente. Vivo nesses três tempos simultaneamente. Sou um brasileiro de Pernambuco. Gosto muito de minha província. Sou sedentário e ao mesmo tempo nômade. Gosto da rotina e gosto da aventura. Gosto dos meus chinelos e gosto de viajar. Meu nome é Gilberto Freyre”.