Sincronicidade

Paramahansa Yogananda, Mestre incomparável (II)

 Compreendi imediatamente que Deus planejou a estranha existência de Teresa para reassegurar a todos os cristãos a autenticidade histórica da vida e da crucificação de Jesus, Conforme relatam os Evangelhos, e para demonstrar dramaticamente o laço sempre vivo entre o Mestre da galiléia e seus devotos.

Paramahansa Yogananda 

[Yogananda, Paramahansa. Autobiografia de um Iogue. Tradução de Adelaide Petters Lessa. – São Paulo: Summus, 1981, p. 343.]

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No texto postado terça-feira passada, comentei a importância da descoberta do livro de Paramahansa Yogananda, Autobiografia de um Iogue, para a minha vida. Posso afirmar que, a partir dessa leitura, o itinerário da minha busca espiritual estava definido. Tudo o que aconteceu depois, foi em grande parte determinado pelas descobertas que fiz nos escritos de Yoganandají.

A muitos leitores poderá parecer surpreendente, até inacreditável, o que direi a seguir, mas o fato é que a descoberta de alguns dos grandes luminares da tradição espiritual cristã devo ao iogue indiano.

Há alguns anos, durante uma aula da disciplina de História das Religiões, um aluno me perguntou se era possível um Mestre de uma determinada religião interagir com um Mestre de outra. A pergunta causou-me grande entusiasmo, pois me ofereceu a oportunidade de falar de um assunto que tomei como missão quando exercia o magistério: incentivar de todas as maneiras possíveis o respeito pelas diferentes tradições religiosas. Naquela ocasião, falei para o aluno que não responderia naquele dia a sua pergunta, preferindo fazê-lo na aula seguinte. Aquela era uma oportunidade muito preciosa para desperdiçar. No momento exato em que o aluno propôs a questão, veio-me à mente um episódio de Autobiografia de um Iogue. Decidi no ato que faria uso dele para dar a resposta solicitada.

E assim foi. Na aula seguinte, lá estava eu, distribuindo a todos os alunos da sala uma fotocópia do capítulo 39 de Autobiografia de um Iogue, intitulado: Teresa Neumann, a estigmatizada católica. Incluí no texto que distribuiria aos lunos a cópia da fotografia que mostra Paramahansa Yogananda ao lado de Santa Teresa Neumann. Foi uma das minhas melhores aulas. A surpresa entre os alunos foi geral. Ninguém, naquela sala, imaginava que fosse possível um encontro daquela natureza.

Santa Teresa Neumann nasceu numa Sexta-feira da Paixão, em 1898. Feriu-se num acidente aos vinte anos, ficando cega e paralítica. Por meio de preces a Santa Teresinha do Menino Jesus, recuperou milagrosamente a vista em 1923. Posteriormente, suas pernas também foram curadas. A partir de 1923, Teresa absteve-se completamente da ingestão de alimentos e bebidas, passando a se alimentar apenas com a ingestão diária de uma hóstia consagrada. Estigmas, chagas sagradas de Cristo, apareceram na cabeça, peito, mãos e pés de Teresa, em 1926. Passou a reviver todas as sextas-feiras a Paixão de Cristo, padecendo em seu próprio corpo as históricas agonias de Jesus. Conhecendo apenas o simples idioma germânico de sua aldeia, durante os transes de sexta-feira, Teresa pronunciava frases que os eruditos identificaram como aramaico antigo. Em certas etapas de sua visão, falava hebraico ou grego. 

Em 1935, durante a viagem que o levaria dos Estados Unidos, onde então residia, de volta à sua pátria, a Índia, Paramahansa Yogananda, sabendo dos estranhos transes extáticos de Teresa Neumann, insistiu em ir à Baviera conhecê-la pessoalmente. Os dois, de fato, se encontraram, conforme relata o Mestre hinduísta:

Na manhã seguinte, nosso grupo prosseguiu de automóvel até a quieta cidade de Eischtatt. O dr. Wutz recebeu-nos cordialmente em seu lar: “Sim, Teresa encontra-se aqui”. Ele mandou avisá-la de que visitantes a procuravam. Um mensageiro voltou com a resposta: “Embora o bispo me haja pedido que não veja ninguém sem sua permissão, receberei o homem de Deus que vem da Índia”. Profundamente comovido por estas palavras, segui o dr. Wutz, escada acima, a uma saleta. Teresa entrou imediatamente, irradiando uma aura de paz e jovialidade. Usava vestido preto e véu imaculadamente branco sobre a cabeça. Apesar de ter trinta e sete anos naquela época, parecia muito mais jovem, possuindo realmente um encanto e frescor infantis. Saudável, bem proporcionada, com faces rosadas e sempre alegre, eis a santa que não come! Teresa cumprimentou-me com um aperto de mãos muito gentil. Sorrimos em silenciosa comunhão, reconhecendo-nos, um ao outro, como amantes de Deus.  
 
Obteve, ainda,  permissão para estar na sexta-feira seguinte entre o grupo autorizado a presenciar os transes de Teresa. Transcrevo, abaixo, um extrato do relato feito por Yoganandají:

 

Penetrei no quarto repleto de visitantes; ela se encontrava deitada no leito, vestindo um traje branco. (…) O sangue fluía das pálpebras inferiores de Teresa, num fio delgado e incessante, da espessura de uns dois centímetros e meio. Seu olhar dirigido para cima, focalizava o olho espiritual no centro da testa. O pano que lhe envolvia a cabeça estava ensopado de sangue, oriundo dos estigmas, as chagas da Coroa de Espinhos. O traje branco apresentava uma rubra mancha sobre o coração, proveniente da ferida do lado, no lugar onde o corpo de Cristo, séculos antes, sofrera a última injúria, ao ser atingido pela lança do soldado.

As mãos da santa estendiam-se em gesto maternal, suplicante; sua face tinha uma expressão simultaneamente torturada e divina. Teresa parecia mais delgada e apresentava mudanças sutis, tanto internas como externas. Murmurando palavras de uma língua estrangeira, falava com lábios ligeiramente trêmulos a pessoas que eram visíveis ao seu olhar superconsciente.

Como eu me pusera em estado de sintonizar com ela, comecei a ver as cenas de sua visão. Ela observava Jesus, enquanto ele carregava o madeiro da Cruz entre os escárnios da multidão. Subitamente, ela ergueu a cabeça, consternada: o Senhor tombara sob o peso cruel. A visão sumiu. Exausta em sua fervorosa piedade, Teresa caiu pesadamente sobre o travesseiro.  

(…) Lembrando-nos da paciente fila de peregrinos, o sr. Wright e eu silenciosamente nos curvamos em adeus a Teresa e nos afastamos de sua sagrada presença (p.344/345).

Santa Teresa Neumann faleceu em 18 de setembro de 1962.