Artesanato da Mente

DRs são exercícios de autopercepção

Estava lendo as palavras da querida terapeuta Gisela Vallin no facebook e fiquei refletindo sobre um tema que muita gente não quer nem chegar perto, as “DRs” (discutir a relação).

Existem DRs não apenas em relacionamentos amorosos, mas em relacionamentos entre amigos, entre colegas de trabalho, e na família. Por isso esse é um texto que serve para todos, todos nós!

Compartilho abaixo suas palavras e em seguida farei uma breve reflexão sobre elas.

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Muitas vezes, entendemos que ser a gente mesmo nas relações é dizer: “Sou assim como sou, dane-se, goste de mim quem quiser, não me interessa a opinião de ninguém.”
Entretanto, dentre todas as possibilidades de facetas que podemos exercer em cada relação, elegeremos facetas que fazem parte do conjunto intersecção na relação com aquela pessoa específica. Parafraseando Arly Cravo: Numa relação, não tenho que ver o que EU quero ou o que o outro quer e sim o que NÓS queremos em conjunto. Por isso, as famosas “DRs “(discutir a relação) podem ser interessantes para nos percebermos melhor e avaliarmos de que forma podemos equalizar as frequências dentro daquele vínculo, sem deixarmos de ser o que somos. Assim, ajustamos as necessidades dos egos sem nos anularmos e sem passarmos por cima do outro.
Em cada relação, expressaremos alguns aspectos da nossa personalidade, porque cada relação é única. Há pessoas com as quais o grau de afinidade é tão grande, que podemos desenvolver uma intimidade imensa. Com outras, só podemos conversar de coisas mais superficiais, porque é o grau de afinidade viável dentro daquele vínculo. Isso não representa auto-anulação, mas sim uma percepção de até onde podemos ir com cada um.

Para algumas pessoas, pode parecer que pedir sugestões sobre um comportamento melhor dentro de uma relação é fraqueza ou uma forma de auto-anulação. Há quem pense: “Como assim você pede sugestões sobre o que deve fazer? Dane-se o que pensam, seja você.”
O que essas pessoas não entendem é que podemos ser o que somos mesmo pedindo sugestões porque, dentre as sugestões recebidas, podemos selecionar as que tocam mais nossa alma para fazermos os ajustes dos egos. Nossa essência não muda, porém, nosso ego precisa de aperfeiçoamento, por isso essas DRs podem ser interessantes para o bom desenvolvimento daquele vínculo, tornando-o mais empático.
Veja, não estou dizendo sobre pedir sugestões para uma decisão pessoal, mas sim para decisões dentro daquele vínculo, onde existe o NÓS.

Em geral, pessoas que tem muito problema com autoridade pensam dessa forma: “Sou como sou, dane-se o que acham, me engulam assim.” Por isso, costumam polarizar para o outro extremo, o da rebeldia e, muitas vezes, não conseguem desenvolver um vínculo saudável com ninguém por conta da dificuldade do desenvolvimento da empatia. Tornam-se excessivamente individualistas pois entendem que o desenvolvimento empático é sinônimo de auto-anulação.

Por isso essa frase do Arly Cravo faz tanto sentido para mim: Numa relação, precisamos avaliar juntos o que NÓS queremos. Num vínculo afetivo, de amizade ou mesmo profissional não existe mais eu ou você e sim o conjunto intersecção que é como se fosse uma terceira pessoa. Esse grau de interação, ou seja, essa dança relacional, quando respeitada, torna as relações extremamente saudáveis. Claro, isso não significa ouvir qualquer um, mas sim pessoas com as quais sentimos afinidade e queremos desenvolver com elas um relacionamento mais perceptivo. Precisamos falar o que gostamos, o que queremos, como queremos e procurarmos chegar num acordo junto com o outro, ouvindo o outro também, sem que ninguém massacre sua alma.

Por isso, sempre que temos a oportunidade de ouvirmos uns aos outros dentro dos vínculos onde temos afinidades, podemos avaliar juntos quais sugestões tocam a nossa alma para tornarmos nossos egos mais disponíveis para relações mais perceptivas, dignas e saudáveis. Isso não é auto-anulação, nem fraqueza, nem insegurança, pois exige a coragem de olharmos para dentro e, ainda assim, desenvolvermos a empatia.

Gisela Vallin

Link: Como podemos nos relacionar sem anularmos aquilo que somos?

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Se de fato estamos buscando o aperfeiçoamento e o desenvolvimento de consciência, as famosas DRs serão recebidas com todo carinho e com uma escuta bem ativa e acolhedora.

Ao ler esse texto lembrei automaticamente do mestre Rubem Alves e a proposta que ele insistiu por anos a fio, de que as pessoas deveriam muito antes de procurar um curso de oratória para falar bonito, ouvir bonito, ou seja, participar de um curso de ESCUTATÓRIA, que infelizmente não existe, e mesmo que existisse ninguém se matricularia.

Essa escutatória é esse processo de AUTOPERCEPÇÃO que a Gisela está falando. Eu tenho cada vez mais buscado esse ouvir bonito proposto pelo mestre Rubem, porque ao fazermos isso, além de desenvolvermos em nós a HUMILDADE, poderemos acolher o que vier dos outros como uma CRÍTICA para melhorarmos em nós o que precisar ser melhorado.

É fato que ninguém gosta de ser criticado, mas mesmo que quem nos critique só fale asneiras a nosso respeito, ainda assim, esse é um exercício de autopercepção, porque ela estará dizendo algo que já estamos colocando em prática na vida e aperfeiçoando.

Vou dar um exemplo. Se alguém chega para você criticando porque não faz nada direito, sendo que você tem dado o melhor de si no seu trabalho. Essa autopercepção vai ajudá-lo a notar que você não se tornou um perfeccionista e que quer tudo resolvido para ontem. Não é bacana esse tipo de reflexão?

Nos relacionamentos amorosos, onde é mais comum as DRs, ao ouvir o que seu companheiro(a) está discutindo com acolhimento e empatia, você fará um esforço para alinhar suas energias e seus propósitos e caminhos, em nome do amor mútuo.

Muitas vezes o outro consegue ver com olhos de águia aquilo que mais precisamos melhorar e que atrapalha nossa evolução. Até já falei em outros textos, o relacionamento amoroso é como um catalisador no processo evolutivo. Sozinho podemos evoluir muito, mas ao lado de alguém amado, essa evolução se dá de forma muito mais acelerada.

Que essa breve reflexão ajude você a ver as famosas DRs com um olhar acolhedor e acima de tudo, com um ouvido acolhedor, para que você seja capaz de ver a si mesmo com clareza e propósito de melhoria.

Dessa forma seus relacionamentos de um modo geral serão lindos e frutuosos e seu processo evolutivo se dará a passos largos…

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