Artesanato da Mente

Os colecionadores colecionam dores

Conversando com um querido amigo pelo facebook ele me inspirou a desenvolver uma temática bem profunda e multifacetada. De antemão quero dizer que um texto breve como esse está longe de encerrar as possibilidades de reflexões sobre o tema, que é o ato de colecionar.

Se pegarmos a palavra colecionador e a quebrarmos temos: coleciona + dor. Ou seja, a pessoa que simplesmente coleciona pelo mero ato de colecionar, está na verdade encobrindo muitas dores, que quase sempre estão ligadas à infância, aos primeiros anos de vida.

Aproveito pra abrir o coração nesse texto e contar do que estou vivenciando nesse exato momento e quero compartilhar com você que me lê. Eu também me tornei um acumulador em relação a algo que eu amo, mas que estava certamente descompassado, que é o prazer de ler em livros físicos, de papel, que você sente a textura, o cheiro, você pode grifar com lápis ou com pincel marca-texto. É uma delícia pra mim ler nessa configuração, ainda não consegui me adaptar bem à leitura de e-books.

Enfim! Até pouco antes da pandemia eu comprava, sem brincadeira, uma média de 1 livro por semana ou a cada 2 semanas. Era muito mais do que seria capaz de ler, mesmo em anos pela frente. Quando a pandemia começou, assim como milhões de brasileiros, eu também fui muito prejudicado financeiramente. Nos primeiros meses da pandemia praticamente não ganhei dinheiro algum, daí eu pensei: “Eu preciso frear esse desejo de comprar livros”. E como decorrência disso, passei a ler livros que estavam na minha estante há 1 ano, 2 anos, alguns até há mais tempo que isso!

E foi um deleite passar esses meses tão difíceis, principalmente em 2020, lendo livros maravilhosos e aprendendo imensamente com eles!

Nesse período, virou naturalmente uma chavinha na minha cabeça e eu percebi que não precisava ter tantos livros em casa. Eu até há alguns anos, pensava em ter uma minibiblioteca em casa, achava lindo ver um montão de livros enfileirados e enchendo sessões e mais sessões de estantes. Mas eu fiquei me questionando? Por quê? Pra quê? Quem eu quero impressionar? Que tipo de prêmio eu vou receber com isso? E muitos outros questionamentos!…

Até que entre julho e agosto de 2021 me veio a ideia incrível de desapegar dos livros que já foram lidos e que certamente não irei mais reler! Fiz anúncios no OLX, no marketplace do facebook e também conversei com muitos amigos em grupos de whatsapp dizendo que estou vendendo diversos livros que já não quero mais!

Nossa! Você não faz ideia do sentimento bom que me veio, é difícil até expressar em palavras o prazer de desapegar de algo que por anos estava enraizado em mim.

Agora vou me aprofundar bem mais viu? Segura as pontas aí ok? Busquei investigar onde estava a raiz desse desejo por acumular livros, e percebi que veio da infância. Já contei em muitos textos que venho de uma família pobre materialmente, e desde garotinho, a maioria dos livros que lia eram, ou dados de presente, ou emprestados de bibliotecas (inclusive faço questão de mandar um beijo e abraço fraterno ao querido SESC, que alegrou minha vida e muitos dos meus dias com sua biblioteca maravilhosa hehehe).

Mas vinha um desejo imenso de ter os meus próprios livros, de não ter que correr contra o tempo pra ler um livro com empréstimo de 2 semanas, de poder grifar à vontade, pois não podemos grifar o que não é nosso concorda?

E pra completar, vinha na minha mente a associação de que pessoas que admirava tinham muitos livros em casa. Olha só a loucura! Vinha a ideia de que ter muitos livros em casa me daria uma certa “credencial” para ser considerado um intelectual! Quando penso nisso hoje, em setembro de 2021, dá vontade de rir das minhas próprias besteiras, porque isso não existe!

A intelectualidade está acima de tudo na possibilidade de levantar reflexões que contribuam pra sociedade e para que o máximo de pessoas possa ser beneficiado por esse conhecimento. Isso é ser intelectual de verdade!

Pra ser bem franco, hoje em dia nem me importo mais com essa denominação. Pra mim tanto faz esse ideia de ser um intelectual ou ser um Zé Ninguém. Pode me chamar de Zé Ninguém viu? Porque sou! hehehe. Se formos analisar com calma, veremos que todos nós somos uma poeirinha dentro de um vastíssimo universo, mas que, como diz a querida Madre Teresa de Calcutá, sem nós como gotinhas de um oceano, esse oceano se torna menor.

Então penso que colecionar, ser um colecionador, está muito ligado a carências materiais ou carências emocionais, que carregamos desde nossa mais tenra infância.

Nós só conseguiremos vencer algum tipo de desejo por colecionar se mergulharmos fundo na nossa história de vida pessoal e identificarmos onde e quando começou esse desejo! Não é simples, não é algo da noite pro dia, mas é possível, falo por mim mesmo, é possível sim!

Quero concluir esse texto com 2 dicas que aprendi com um ser humano que muito me inspira, o querido monge budista Jorge Mello. Ele é um dos maiores propagadores aqui no Brasil do conceito de “simplicidade voluntária” e ele sempre fala em entrevistas essas 2 dicas!

1ª) Tudo que você guarda com tanto zelo, com tanto ardor, depois que você partir desse mundo, vai virar pó, vai ficar entregue às traças…

Então que tal passarmos a diante nossas coisas muito antes de isso acontecer? Com livros isso se encaixa perfeitamente! Penso hoje em dia que o conhecimento ali contido deve passar de mão em mão, pro máximo de pessoas que for possível, assim em vez de 1 pessoa só, muitas serão beneficiadas.

2ª) A cada nova coisa material que você adquirir, se desfaça da anterior

Essa dica é ainda mais perfeita. Veja só! Você compra um livro, então você doa ou vende um que já leu.

Você compra um conjunto de pratos, então doa ou vende os antigos!

Você compra uma bicicleta nova! É lógico que você vai doar ou vender a antiga. Pra quê ter duas bicicletas só pra você hein?

Você compra novas roupas, então o ideal é doar as antigas pra algum brechó! Você já viu a alegria das pessoas que compram em brechós? Elas ficam com um sorriso de um lado pro outro do rosto…

E assim com tudo o mais!

Gostou das dicas? Que tal incorporá-las na sua vida e no seu contexto?

Reflita com carinho sobre tudo isso vamos mudar da ideia de colecionar dores para a ideia do DESAPEGO, da filosofia OLX!

Concluo com a máxima do mestre Buda Gautama que de forma simples e impactante resume todo esse texto: “A raiz de todo sofrimento está no apego”…

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