Discografia

Não julgue pelas aparências

Há quem defenda a ideia de que ninguém compra livro ou disco pela capa. Ok. Até concordo que – diferente de um quadro – livro e disco não é artigo pra ser olhado. Se (pra todos) não houver conteúdo, bem pouco importa. No entanto, é fato que (pra todos) uma boa aparência é fator primordial na hora de seduzir um comprador indeciso. No caso dos discos, tema principal deste delicioso blog, ganha quem consegue conjugar uma boa produção gráfica com uma boa produção musical. Quem erra, pode correr o risco de cair nos preconceitos. Pois foi isso que aconteceu com a mineira Juliana Valadares, que está estreando com Vem Cá (independente). Antes, apresentemos a moça. Pregando o velho ecletismo musical, Juliana é filha de pianista, tem formação superior em canto lírico e trabalhos com bandas pop. Entre as inflências citadas por ela mesma, estão Elis, Tim Maia, Maria Callas e Beatles. O resultado dessa salada é um bom trabalho que pega o filé da MPB moderninha com toques de eletrônica e uma ponte com o passado. Bem cantado e tocado, o disco só peca pelo visual um tanto colorido demais. Os tons exagerados na capa e encarte se contrapõe ao conteúdo elegante das canções. Se não é surpreendente, é fato que ela acertou em cheio em não se fazer pretenciosa. Embora ela insista no tema “amor”, é fato que não faz isso da forma mais óbvia nas sete composições de próprio punho. Os destaques fica para Minha lua e Já faz tempo, ambas prontas pra tocar no rádio. Antes de um remix desnecessário, o disco encerra com Linha reta, composição da surpreendente Vanessa Bumagny que ganha os ouvidos daqueles que gostam de um pop bem feito. Além de duas composições de Moisés Santana (as balançadas Vem cá e Cilada), o disco traz ainda regravações interessantes de Feira de mangaio, Saltei re banda e Habanera, esta última um trecho da ópera Carmen, de Bizet. As comparações com Clara Nunes e Elza Soares soariam completamente desnecessárias, uma vez que ela mais parece querer homenagear do que “resgatar”, “atualizar” ou “lembrar” velhos clássicos. O desejo mesmo foi clarificar que Juliana Valadares tem boas influências, sabe cantar e fazer disco, só precisa repensar o visual.