
No entanto, os elogios citados acima e muitos outros são poucos diante da obra de Guinga, construída com o apoio de parceiros como Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro e Chico Buarque. Músico autodidata, ele começou a dedilhar o violão com 13 anos e aos 16 já se arriscava a compor. Aos 26, tocou ao lado de Cartola na antológica gravação de As rosas não falam. Hoje, com 63 anos, ele acumula intérpretes como Elis Regina, Fátima Guedes, Ed Motta e Leila Pinheiro (que gravou o disco Catavento e Girassol, somente com músicas de Guinga e Aldir Blanc).
“A minha formação não existe. Sou autodidata. A música que eu proponho é popular, mas o acabamento que eu dou pode ser comparado ao de música de câmara”, reconhece Guinga citando Tom Jobim como outro exemplo desta linhagem. “Eu tento fazer uma música rica e já tive outras experiências assim (juntando o erudito e o popular)”. Ainda assim, o violonista não deixa de se orgulhar com a homenagem do Quinteto Villa-Lobos. “É um disco atemporal, de compromisso com a música que eles gostam e que eu também gosto e admiro. Como eu toco com o Paulo Sérgio (Santos) há 25 anos, é uma união que já vem sendo anunciada há muito tempo”.
Odontólogo de formação, Guinga aposentou o consultório há cerca de 10 anos e passou a se dedicar mais à música. Por isso, esse encontro com o Quinteto já passou por lugares como Cartagena, Alemanha, Eslovênia e diversas cidades brasileiras. Embora tenha ido muitas vezes ao exterior, a modéstia pede que ele reafirme que não é um sucesso. “Tenho muito convites pra tocar lá fora, mas é tudo trabalhar e correr atrás. Nada cai do céu”. Para o músico, que já teve música gravada até pelo pianista francês Michel Legrand, o Brasil é muito pouco famoso lá fora. Só em determinados nichos há público garantido. “Não é todo dia que tu lota um teatro”.
[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=W-iyKicVpbw[/youtube]E no Brasil, apesar do currículo, Guinga não vê as coisas mais fáceis. Apesar dos 12 discos lançados (tirando os tributos de Leila Pinheiro e Marcus Tardelli), para muitos, ele ainda é considerado um ilustre desconhecido. “Na realidade, existe uma diferença entre fazer sucesso e ser bem sucedido”, justifica com tranquilidade. “Acho que o Guinga nunca foi vendedor de discos. Mas, se você for ver minha carreira, é muito bem sucedida. Sou muito bem resolvido artisticamente”. E acrescenta: “Pra minha felicidade a minha obra não corresponde à cronologia do meu tempo. Eu passo, mas minha obra continua”.
Ainda assim, ele sabe do respeito que lhe dedicam dentro e fora do seu País. Compondo, tocando ou cantando com sua voz peculiar (“o Sérgio Mendes diz que eu tenho fumaça na voz”), Guinga arregimenta um time respeitoso de admiradores e até se surpreende com isso. Foi o que aconteceu no mês passado, quando foi convidado para dividir o palco com a jazzista norte-americana Esperanza Spalding. Foram noites de casa cheia e fila na porta. “Me senti por um momento como o Michael Jackson. Será que é hoje que vão rasgar minha roupa?”. Não chegaram a tanto, mas logo ele tirou uma lição do fato. “O importante é você se posicionar dentro disso. Saber que não é rei nem plebeu, tentar fazer as coisas com dignidade”.
Serviço
Guinga e Quinteto Villa Lobos – Rasgando Seda
Quando: sexta-feira (21) e sábado (22), às 20h; domingo (23), às 19h
Onde: CAIXA Cultural Fortaleza (Av. Pessoa Anta, 287 – Praia de Iracema)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). À venda no local
Outras informações: 3453.2770