Discografia

Projeto de livro e doc conta a história do Lira Paulistana

Casa Benedito Calixto-credito Calil NetoNa história da música, alguns lugares tornaram-se míticos tanto pela proposta que ofereciam como pela qualidade dos frequentadores. Foi assim o Cavern dos Beatles, o CBGB dos punks, o Anísio do Pessoal do Ceará e o Madame Satã do rock brasileiro oitentista. Outra casa que compõe essa lista é o Lira Paulistana, um teatro de arena montado num porão da Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros. Para no máximo 300 pessoas, o espaço recebeu peças de teatro, exposições, exibição de filmes e shows antológicos, que iam de jovens artistas à esquecida Aracy de Almeida.

Polo aglutinador de jovens em busca de novidades, o Lira Paulistana nasceu em 25 de outubro de 1979 e, por seis anos, manteve hasteada sua bandeira de liberdade criativa e profusão intelectual. Essa história de resistência está sendo contada em detalhes no livro Um delírio de porão, do cearense Riba de Castro, produtor, cineasta e um dos proprietários da casa. Com patrocínio da Natura Musical através da Lei de Incentivo à Cultura, a publicação esmiúça a história do Lira em 206 páginas de depoimentos e muitas fotos raras. O projeto rendeu ainda o documentário Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista, dirigido por Riba, e um site que reúne mais histórias e imagens.

capa_lira-altaComo a ideia original do Lira Paulistana era ser somente teatro, a inauguração aconteceu com a peça É fogo paulista, de Mario Masetti, com Cristina Pereira e Rafael Ponzi no elenco. O aluguel era baixo e algumas noites ficavam sem programação, por isso muitos músicos também procuraram o espaço para suas apresentações. E aí a coisa tomou outro rumo. Almir Sater, Gereba, Cida Moreira, Titãs, Ultraje a Rigor e Língua de Trapo foram alguns dos nomes que passaram por aquele porão. Como o espaço era pequeno, muita gente acabava ficando do lado de fora.

Se o Lira Paulistana era a igreja de quem queria absorver e expressar novas ideias, Itamar Assumpção era o messias daquela geração. Líder involuntário do movimento que ficou conhecido como Vanguarda Paulistana (ou Paulista), o compositor de Tietê reuniu em torno de si uma série de novos nomes que faziam música e andavam à margem do que ditava a indústria fonográfica. Grupo Rumo, Premeditando o Breque, Tetê Espíndola & o Lírio Selvagem, Banda Isca de Polícia e Arrigo Barnabé integravam esse time que propunha pequenas revoluções sonoras, estéticas e artísticas.

Como esse time encontrava pouco espaço nas gravadoras, o Lira também virou selo fonográfico. A estreia no selo foi com Beleléu, leléu, eu (1980), primeiro e obrigatório disco de Itamar. Em seguida, veio toda a turma da Vanguarda e mais Ratos de Porão, Tom Zé e outros. Depois de 20 anos sem gravações, Aracy de Almeida também foi convidada a se apresentar naquela casa. O show rendeu o disco Ao vivo e à vontade, lançado em 1988, ano que a cantora faleceu vitimada por um edema pulmonar aos 74 anos. Na apresentação informal, a Araca revisita velhos sambas de Noel Rosa.

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Com o mesmo clima de liberdade para tudo aquilo que não achava espaço na indústria, a marca Lira Paulistana passou a abrigar editora de livros, gráfica, jornal, loja de discos e galeria de arte. Com o tempo e o crescimento do público, eles também passaram a realizar eventos na Praça Benedito Calixto, que fica em frente ao Lira. Mas aí, por volta de 1984, os donos do local começaram a engatar outros projetos, ao mesmo tempo que outras casas passaram a receber a cena independente paulista. Além disso, a Vanguarda Paulistana havia crescido e seu público não cabia mais naquele porão apertado. Nessa época, os punks haviam ocupado o espaço com shows que, quase sempre, terminavam em depredações. Foi então que veio o tiro de misericórdia com um comunicado da prefeitura para que o Lira Paulistana fizesse reformas estruturais. Sem dinheiro, o jeito foi passar o ponto e encerrar uma das histórias mais interessantes da música brasileira.

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