
Aquilo que a gente diz é o 15º álbum de Célia Regina Cruz. Dona de um grave macio e encorpado, esta cantora de 68 anos aceitou o convite do produtor Thiago Marques Luiz para colocar voz em um repertório que vai de Otto a Ivan Lins. “Ele me ligou e disse: ‘vamos fazer um CD?’. Eu respondi: ‘Vamos’. Simples assim”, resume, por telefone, a cantora que concordou com a ideia de misturar épocas da música brasileira em canções inéditas e outras que gostava de cantar.
Para essa mistura de rocks, raps, baladas e sambas, Célia adota um mesmo tratamento de piano, violão, baixo e um mínimo de bateria. Sobre essa cama, uma voz sedutora, encorpada e madura que faz o repertório como um todo parecer fruto de uma mesma época. “Não sou aquela cantora de fazer muita firula. Não sou chegada a muitos agudos, nem olimpíadas vocais. Sabe a linha Mariah Carey? Sou mais a linha Ella Fitzgerald”, confessa.
Soledade
Cida Moreira também é dona de uma voz bem particular, que ganha ainda mais personalidade no molho teatral que ela dá às próprias interpretações. Assim é Soledade, 11º disco de uma história que começou em 1981, com o visceral Summertime, solo de piano e voz gravado no teatro Lira Paulistana. O disco produzido pela gravadora Joia Moderna, do DJ Zé Pedro, nasceu de um conceito bem simples: ela queria que o disco começasse com Viola Quebrada, composta por Mário de Andrade nos anos 1920, e terminasse com O Pulso, lançada pelos Titãs em 1986. Nesse meio, há um Brasil que se transformou ao longo dos anos.
Essas “coisas fora de moda” ela viu durante as filmagens de Deserto, numa pequena cidade do sertão paraibano chamada Soledade. Sem indústria, sem a correria dos grandes centros, com um comércio pobre, ela viu um Brasil em extinção. “Nós temos um país que se extinguiu. Há expectativa de que muita coisa volte a acontecer. Mas, está vindo aí um mundo mais superficial, falsamente progressivo”, define Cida que saiu pescando canções da memória que retratassem esse sentimento. Assim vieram Bom Dia (Gilberto Gil/ Nana Caymmi), Moreninha (DP), Outra cena (Taiguara), Forasteiro (Thiago Pethit/ Hélio Flanders) e outras.
Meio trágico e operístico, Soledade tem o mesmo perfil conceitual presente em toda a discografia de Cida Moreira. Entre tributos a Chico Buarque e Cartola, passeios pelos ritmos brasileiros (Uma canção pelo ar…) e outras propostas, agora ela homenageia o Brasil a partir das próprias memórias. O resultado é um disco cáustico, severo e de poucos sorrisos, mas que deixa claro que o pulso ainda pulsa.
Serviço:
Célia – Aquilo que a gente diz
10 faixas
Nova estação
Preço médio: R$ 29,90
Cida Moreira – Soledade
15 faixas
Joia Moderna
Preço médio: R$ 25,90