Entre Aspas

Espera vermelha, cor de fogo

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Ele odiava esperar. E pior do que isso, esperava pelo que não vinha mais. Espera pelo duvidoso, pelo incerto, pela incógnita, pelo x da questão, era uma espera chata, cansativa, mas que todos os dias ele estava lá, na espreita , esperando pelo futuro tão indecifrável que era o dele. A espera tinha haver com o telefone vermelho que ficava na sua sala de estar, chique, baseado nas decorações de Londres, depois da recente viagem que ele fizera. Entre as almofadas e os sofás de couro cinza, estava o telefone com fio, vermelho, da cor do fogo, da cor da espera dele, que era infinita.
Estava mal, muito mal. Os amigos do trabalho o taxavam como louco, os seus familiares o chamavam de psicótico, pelo simples fato dele falar só e sonhar só e rir só e fazer sexo só, se é que me entende. Tudo dele era só, só ele e o seu eu, eu lírico e caneta, história e autor. A solidão sempre fez parte de sua vida, até para nascer não precisou da ajuda de ninguém, o médico nem teve muito trabalho, abriu as pernas da mãe e com apenas dois gritos com pouca força o tal saiu, veio ao mundo, nem chorou. Talvez tivesse previsto que gastaria suas lágrimas em outras ocasiões, estas não iriam lhe faltar.
O rendimento no trabalho vinha ruim, na vida social então, vinha pior ainda. Não saia, não fazia supermercado, nem lia a coleção de Dostoiévski e Kafka que se amontoavam na cabeceira da cama, não assitia os filmes de Tim Burton, que ficavam arrumadinhos e lindinhos na estante da sala, não fazia nada, só ficava em frente ao telefone, esperando pelo seu toque. Fez do carpete do chão a sua morada, e não queria mais sair. Esperava esperava e nada. Nada de toque, nada de ligação, nada de sinal. Nenhum sinal de vida, quanta maldade, pobre coitado.
A noite escura deu lugar ao sol, que com seus raios ultra violentos o atingiam com toda a força. Odiava o dia,  a luz era sua inimiga, o escuro era seu parceiro irmão camarada. No preto, era homem, no branco, era fantasma. Ao acordar ligou para o chefe avisando que não iria trabalhar porque não tinha acordado bem disposto, estava com fortes dores na coluna, não era mentira, era verdade. As dores eram relativas às suas investidas em frente ao telefone que nunca tocava, nunca. Pegou o jornal, leu as notícias do dia e pensou consigo mesmo: “enquanto uns se prendem à internet ou ficam vidrados no celular, nas redes sociais, eu fico aqui, preso a um telefone com fio, sem poder sair de casa”.

Isso essa a pura verdade: ele com seus vinte e cinco ou vintes seis anos de idade, preso ao passado, ao passado que por ironia do destino tinha sido um dia o seu presente. Tomou chá verde, comeu bolachas de sal e água e ficou deitado olhando para o teto branco de seu quarto. Resolveu fazer diferente naquele dia. Não iria ficar em frente ao telefone na sala, ia ficar no quarto mesmo, se por acaso tocasse, sairia em disparada para atender e escutar a voz do outro lado do fone. E foi o que aconteceu.
Estava prestes a cair em um de seus sonos intermináveis. A casa toda estava em silêncio, o único barulho era do ar condicionado que jorrava vento frio pelo quarto. O telefone tocou. Triiiiim! O primeiro toque arregalou os seus olhos. Triiim! O segundo toque, lhe trouxe a realidade. Triiim! O terceiro, lhe deu medo. Triim! O quarto lhe atingiu em cheio. Triim! O quinto, lhe dilacerou. Não teve ação para correr, para ir atender o telefone, suas pernas não o deixaram, ele ficou tão abismado com o toque estrondoso que rompeu o silêncio que não levantou, ficou na cama, inerte, estupefato e caiu em sono profundamente. Acordou três dias depois. Olhou em volta do seu quarto, estava tudo do jeito que tinha deixado ao cair em estado de hibernação. Viu as milhares de mensagens e telefones do seu celular, isso não lhe importava mais. Tinha tomado uma decisão, não sairia mais de casa enquanto não atendesse aquele telefone.
E foi o que ele fez, durante os próximos três meses, ficou esperando o telefonema e nada. Estava vegetativo. Não tinha mais comida, nem água, nem nada, sua casa se tornara uma selva, onde um bicho ávido pela presa não faz nada ao não ser caçar. E ele estava na sua caça, caça ao mistério, caça ao duvidoso, nem eu mesmo, sei o que tanto lhe torturava. O tempo passou, os dias e as noites trocaram seus lugares, os boêmios saiam à noite, os padres rezavam as missas, as beatas dormiam nas missas, as prostitutas ganhavam a vida, Caetano Veloso cantava suas músicas normalmente , casais noivavam, separavam, reatavam ,acidentes aconteciam, o ônibus passava pelo ponto da avenida principal, os carros faziam motim por conta da falta de energia dos semáforos e a vida seguia, só não para ele que de desgosto por não ter atendido ao telefone, morrera. Morrera na mais profunda tristeza e solidão. Seu cadáver se instaurou na sala, o odor ganhou as ruas da Paulista e o mundo. Depois de tudo isso, depois de quase um ano de espera por uma ligação, o telefone toca, toca repetidamente vinte e cinco vezes e mais uma vez e mais outra vez e mais uma e triiiim!. O telefone tocou, mas agora já era tarde demais…

 

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