Entre Aspas

Mar de pipas

pipas enfeitando o céu

pipas enfeitando o céu

Uma segunda-feira é tediosa para muitos, digo que é quase para todos, mas para nós, os meninos da rua do Sal, como era conhecida a rua que antecedia o mar, a segunda-feira era uma odisseia, pois era o começo das traquinagens, das brincadeiras de pião, do esconde-esconde, do famoso sete pecados,  do carimba e claro que não podia faltar, as pipas.
Para os meninos da rua do Sal não havia tempo ruim, depois da aula, no sol de maio fervendo, rachando a cuca, nós brincávamos, brincávamos e assim escrevíamos as páginas da infância que outrora, sem sombra de dúvidas, sentiríamos falta.  Romeu, Júlio, Juliana, Cacá(eu), Douglas e Fátima, mas conhecidos como os meninos da rua do Sal,  de grão em grão fomos construindo a nossa fama de  gangue. É, isso mesmo! Gangue de crianças que não tinham nenhum problema, a não ser quando uma bola caia na casa do vizinho ou coisa parecida.
Lembro de uma vez que  o Douglas tinha acabado de ganhar uma bola com estampa da Coca-cola e a gente foi  brincar de carimba, mas um impulso falso da Juliana fez com que a bola fosse parar no quintal da dona Fátima, a mulher mais chata e ranzinza da  rua, do bairro, do mundo. A mulher era um cão, literalmente. Mas isso daí são outros quinhentos, conto para vocês numa outra hora.
Só quero relatar uma lembrança de quando a nossa turma se reunia para soltar pipa, depois de todas as outras brincadeiras e invenções a última do dia era soltar pipa. Lembro que a rua era pequena, estreita e ficava lotada de criança, vinham meninos e meninas de todas as outras ruas,  de todas as idades, quer dizer, não podiam ser mais velhos do que nós, porque sempre gostávamos de ser os mais “velhos” da rua para que as regras do jogo fossem traçadas por nós. Como eu ia dizendo, a segunda-feira era um dos dias principais dias, pois a rua estava vazia, depois da aula, íamos  todos para a frente da casa do Douglas, e nos dividíamos em grupos de cinco.
Um grupo ficava a gente; os meninos da rua do Sal e os outros eram com os meninos que restavam. Era uma farra só.
As pipas flutuavam como se fossem pássaros. Era um mar de pipas.  O Tito, um menino da rua de trás, se tornava o maior vilão nessas horas. Ele vendia as pipas, de todos os tipos, cores, formatos, tamanhos e quando alguém perdia,  nos famosos combates de corte, ele já anunciava que venderia as pipas, só que era um preço tão caro, mais tão caro que era preciso ter uma pequena discussão para que ele abaixasse o preço  e assim continuássemos a nossa tarde das pipas.
 É, se eu for contar a minha minha vida , as minhas manhãs, tarde e noites da infância, tenho certeza de que daria um livro, um exemplar de como viver bem a infância, pois se teve uma época que eu vivi intensamente foi a infância. Como não dá para voltar no tempo(clichê), o que resta é lembrar de tudo o que aconteceu. De todas as quedas, de todas as brigas, de todos os gols, de todos os esconderijos, de todas as pipas, de toda a infância.
Texto: Eduardo Sousa || Imagem: Internet

 

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