Entre Aspas

Marcas da infância

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Ao contrário do que se pensa, ser adulto não é tão legal assim. Fiz vintes anos, ano passado e tão é recente, e cá pra nós, cadê a graça disso? Queria mesmo era voltar a ter os meus oito, dez anos de idade, voltar para o tempo em que os únicos problemas era estudar pras provas parciais e bimestrais, não tinha nada de ap1, ap2 e muito menos artigo científico para fazer. Resumindo, na infância tudo é moleza. Mas quando somos crianças desejamos tanto ser adultos, falar como adulto, comer como adulto, fazer o que os adultos fazem…enfim, ser criança (sendo criança) é chato, ninguém pode explicar isso.

Hoje conversando alguns minutos por telefone com uma amiga minha de infância, relembrei várias histórias sobre a minha época de criança, tem cada coisa que daria um livro, quem sabe até um best-seller.  Estou escondendo uma mina de ouro, quem sabe um dia não publique essas estórias de um menino traquina como eu? Quem sabe…
Tive saudades das brincadeiras de esconde-esconde, de dar a volta completa pela rua, de pegar a minha bicicleta caloi verde água para andar na pracinha até os meus pés pedirem arrego ou cair no asfalto e ralar os joelhos, o que acabava acontecendo na maioria das vezes. Esse é um dos pontos negativos de ser criança. Criança cai muito, muito, mais muuuuito mesmo. Acho que enricava as farmácias perto da minha casa, comprando band-aind e álcool para passar nas feridas da infância. Lembro de um episódio interessante…
Estava eu brincando com os meus outros colegas de corrida. Cada um pegou a sua bike e foi dada a largada. Eu disparei na frente como um louco, pedalava tão rápido, mas fui ultrapassado por outra bicicleta, depois dei a volta por cima e consegui chegar em primeiro lugar, só que, porém todavia, entretanto, como dizem por aí (alegria de pobre dura pouco), eu cai assim que ultrapassei o ponto de chegada, meu pé devido às minhas pedaladas drásticas entraram na roda da bicicleta e a queda foi feia. Foi feia!
O mais engraçado de tudo é que enquanto os outros chegavam e riam da minha queda, eu me levantava, limpava o areal que tinha se apossado em mim, pegava a bicicleta e andava rumo à minha casa, não chorava, não demonstrava nenhum resquício de choro ou tristeza ou vergonha, na frente deles eu era forte. Mas daí quando ultrapassava a porta da minha casa, o meu mundo caia. Caia em choro, em prantos, em gritos, enlouquecia a minha mãe, dizia que ia morrer, que o corte tinha sido feio demais e blá blá blá…
Minha mãe, sempre tão atenciosa e preocupada comigo, limpava os ferimentos com água oxigenada, eu desmoronava em choros, parecia que estavam colocando ácido úrico na minha pele, eu não entendia o porquê tanto que esse troço doía nos ferimentos, mas hoje, ah, hoje eu entendo.
As feridas da infância hoje não doem mais, muito pelo ao contrário. Até doem, mais a dor é de saudades. Saudades de um tempo em que só as cicatrizes de quedas, fotografias manchadas e conversas noturnas com amigos podem fazer lembrar e jamais esquecer.

 

Texto e Imagem: Eduardo Sousa

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