Fora da Ordem

De Mãos Dadas com o Amor

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De Mãos Dadas com o Amor

Dezembro passado, vi dois rapazes andando de mãos dadas pela calçada de uma avenida     movimentada da cidade. Era tardinha e a cena natural me lembrou da felicidade em assumir quem somos, quem amamos, a despeito do que os outros desejam escolher por nós.

Viajo de réveillon para o Uruguai e andar de mãos dadas com meu esposo atrai olhares. No início não reparei, mas ele comentou e ajustei a atenção. Era fato, as pessoas espiavam nossos dedos entrelaçados. Olhavam com estranheza. E estranhamento é o que fui sentindo por dentro. Será que estávamos perturbando algum hábito local?

Em terras estrangeiras, me vi questionada diante de um ato tão costumeiro (ou será brasileiro?) – dar a mão a quem amamos. Nesse mesmo país, onde é comum os homens se cumprimentaram com dois beijinhos no rosto (vi homens beijarem homens e apenas sorrirem para a mulher), acharam curioso um casal caminhar de mãos dadas.

Em Montevideu, onde também não vi pelas “calles” pessoas LGBT, um motorista nos alertou, “não é visto com bons olhos”. Ao que respondemos, “mas aqui homens se beijam no rosto com naturalidade…”. Ouvimos: “Sim, beijam amigos. Mas se quiser ser outra coisa, precisa ir para fora do país, porque aqui o preconceito social é grande”.

Curioso, no Brasil não é comum homem beijar amigo homem no rosto (há exceções e costumes particulares é verdade), mas os casais podem andar de mãos dadas (ainda podem?). E no Uruguai homem beija amigo, mas não se dá a mão para o amor. O que há de comum, infelizmente, é o preconceito, mais ou menos velado de ambos os países. E a violência, essa está pela hora da morte no Brasil. Enquanto isso, só queremos andar de mãos dadas (casais, crianças, amigos); que sufoco!

Recordo agora passagem do livro da Martha Medeiros que me acompanhou nessa jornada – “Um Lugar na Janela 2 – Relatos de Viagem” – Ela diz: “Viajar é apenas o tubo de oxigênio que nos permite mergulhar na nossa estranheza e insegurança, que nos obriga a lidar com a dificuldade de se expressar em outro idioma diferente e nos faz encontrar outros meios para nos traduzirmos (…) que nos faz compreender que há outros jeitos de cumprimentar as pessoas (…) outros deuses, outros modos de se vestir, outros sorrisos, outros ritmos – e essa incrível universalidade aniquila nossa soberba e desperta insuspeitas virgindades em nós, o que é sempre rejuvenescedor.”

Eu ali, no Uruguai, tentei traduzir esse outro meio de cumprimentar as pessoas, de expressar o amor, e me senti intrigada; recordei os rapazes de mãos dadas pelas ruas de Fortaleza. Será que se sentiam estranhos àquela tarde, onde eu passava de carro e os avistei, quando nunca irão ouvir falar sobre mim? Davam as mãos, mas por dentro rangia o questionamento sobre seu direito de amar, de demonstrar afeto? Caminhavam rumo ao direito de ser quem são? Já haviam atravessado o trecho escuro do medo?

Latinos, nós (brasileiros, uruguaios e tantos mais), de sentimentos tão aflorados, mas ainda controversos em nossas demonstrações de amor.

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