Fora da Ordem

“Na troca com o diferente se dá a oportunidade de aprender”, diz Leonardo Boff

O teólogo palestra sobre ética e sustentabilidade na educação, no Sesc Iguatu e Crato. O evento é parte do projeto Formação Contínua de Educadores do Sesc

(Foto: Talita Rocha, em 22/7/2010, para O POVO)

Com o tema “Ética e sustentabilidade no contexto da educação contemporânea”, o escritor e teólogo Leonardo Boff ministra palestra no Serviço Social do Comércio (Sesc) Iguatu e Crato, nos próximos dias 24 e 25. Com entrada já esgotada, evento é direcionado a professores, gestores de instituições públicas e privadas, acadêmicos de cursos de licenciatura, educadores populares e líderes comunitários.

Para a supervisora pedagógica da Educação Complementar do Sesc Crato, Ingrid Alidiane, a palestra será um momento enriquecedor, de reflexão e ressignificação da prática docente. Ingrid explica que ética e sustentabilidade são assuntos discutidos nas formações do Crato e os próprios alunos indicaram o nome de Boff, uma autoridade no tema, para aprofundar a questão.

Leonardo Boff é doutor em Teologia e Filosofia, reconhecido professor e conferencista internacional, um dos iniciadores da Teologia da Libertação, autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Ecologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. Em entrevista ao Blog Repórter Entre Linhas, o teólogo explica que o novo formato de educação deve incluir dois pontos fundamentais: saber conviver e saber cuidar. Confira.

Em termos de ética e sustentabilidade, como avalia o contexto da educação contemporânea?

Leonardo Boff: Na educação não se abordam de forma curricular temas de ética e de sustentabilidade. Isso suporia uma certa consciência ecológica que não existe. No máximo se fala de meio-ambiente, mas numa perspectiva de como quem vê a natureza de fora e não como sendo parte dela e com a responsabilidade de cuidar. Hoje é urgente, dado o fato dos riscos que pesam o sistema-vida e o sistema-Terra,uma cultura ecológica que naturalmente se predispõe a cuidar de tudo o que existe e vive, especialmente dos mais vulneráveis da humanidade e da natureza.

Qual seria um novo formato de educação?

Boff: No meu ponto de vista, a educação deve incluir dois pontos fundamentais: saber conviver e saber cuidar. Saber conviver é a condição das pessoas dentro de uma sociedade complexa na qual há tantas diversidades. O estudante deve aprender a conviver positivamente com as diferenças e não deixar que elas se transformem em desigualdades. Na troca com o diferente se dá a oportunidade de aprender. Cuidar é imperativo no sentido de que estamos enfrentando grave crise ecológica. Não estamos indo ao encontro do aquecimento global. Já estamos dentro dele. Do aquecimento se derivam os eventos extremos: de um lado secas enormes, como no semiárido do Nordeste onde não chove há 6 anos e enchentes e grandes fios no sul. Se não cuidarmos em não emitir gases de efeito estufa, que são consequências de energia fóssil como o petróleo ou então das grandes queimadas, poderemos num futuro não muito distante conhecermos uma crise ecológico-social de grandes proporções.

Como desenvolver a ética no país que está em crise de referenciais?

Boff: A ética é intrínseca ao ser humano, quer dizer, somos feitos para o bem. Todos entendem a regra de ouro de toda ética: não faças ao outro o que não queres que te façam a ti. Ou: o bem é só bom quando é bem também para os outros. Numa outra formulação: trate sempre com humanidade os seres humanos. Igualmente, não faças sofrer os animais que foram gerados também pela Mãe Terra e são membros da mesma comunidade de vida. Ocorre que em nós há pulsões de generosidade e pulsões e egoísmo, de autoafirmação e de descolamento do outro. Podemos orientar nossa vida a partir de um polo, por exemplo, buscar só o meu bem a despeito e, às vezes, à custa do outro. Aí serei egoísta e dificilmente mostrarei solidariedade e espírito de cooperação. Ou também, posso me abrir à generosidade e procurar ajudar a quem está do meu lado ou incluir a natureza na busca de uma relação amigável.

Quais são as práticas para um mundo mais sustentável?

Boff: São muitas. De forma mais direta é a vivência dos três erres (r): reduzir o consumo mediante uma sobriedade compartida, reusar o que já usei dentro de uma outra finalidade e reciclar, quer dizer, permitir que dos dejetos e restos que sobram de meu consumo possam ser transformados, como os plásticos, o papel e metais para vários produtos e usos. Além disso, a sustentabilidade hoje nos impõe economizar a água, um dos bens mais escassos da natureza; não queimar nada, pois isso reforça o aquecimento global; rearborizar espaços degradados; cultivar uma mente aberta ao diálogo e à cooperação; cultivar a arte e o lazer criativo; por fim, estar aberto a valores não materiais como a compaixão para com aqueles que sofrem, seja com referência aos humanos e também à natureza e aos animais, e viver uma dimensão de amor e de cuidado para com todos. Mas a sustentabilidade só será garantida quando renunciarmos à uma relação meramente de exploração da natureza e passarmos para uma relação de respeito e cooperação, cientes do fato de que os bens e serviços naturais são escassos e deverão atender a nossas necessidades e as das gerações futuras. A Terra não pode ser considerada como um baú cheio de recursos, mas, como a vê a moderna cosmologia, como um super-organismo vivo que articula o físico e o químico de tal forma que sempre produz e reproduz vida. Ela é verdadeiramente nossa Grande Mãe que tudo nos dá para a nossa vida. Ela é, na feliz expressão do Papa Francisco, nossa Casa Comum.

Estudiosos de economia e da vida em rede falam sobre o futuro dos negócios ser a cuidadoria (cuidar de algo). Como percebe o assunto?

Boff: Eu creio que ou nós cuidamos dessa herança sagrada que recebemos do universo ou de Deus ou vamos ao encontro do pior. Dentro de alguns anos, a economia terá como centralidade a vida, a natureza e a sustentabilidade. A economia e a política hão de estar a serviço primeiramente da vida e somente depois do mercado. A civilização será biocentrada e todos nós viveremos como irmãos e irmãs dentro da Casa Comum como uma única e grande família. Cuidar implica sempre o outro que sente necessidade de ser cuidado. E cada um também sente necessidade do cuidado, para enfrentar os eventuais desânimos, próprio de nossa existência no mundo e no corpo.Cuidar e ser cuidado pertencem à essência do humano.

Sua recente obra, “O Livro dos Elogios”, trata sobre os valores perdidos na sociedade?

Boff: Este livro trata do valor do cotidiano, daquilo que parece insignificante, mas que esconde valores que dão sentido à nossa vida.Assim as relações parentais, as virtudes do cuidado, da hospitalidade, do controle sobre a estrutura de desejo que está em nós, mas também narrativas espirituais que nos fazem entender melhor Deus e sua graça.

Serviço
Palestra “Ética e sustentabilidade no contexto da educação contemporânea” com Leonardo Boff
24/10 – 18h – Unidade Iguatu do Sesc
Informações: (88) 3581.1130
25/10 – 18h – Unidade Crato do Sesc
Informações: (88) 3523.4444 / 3586-9168 / 3586-9177

 

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