Fora da Ordem

“Vai ser mais difícil fazer cinema nesse contexto político”, diz Johnny Massaro

(Foto: Jorge Bispo)

Johnny Massaro é a estrela de Todas as Razões Para Esquecer, o primeiro filme do cineasta Pedro Coutinho. Eles estiveram em Fortaleza na noite desse sábado, 3, para sessão do filme seguida de debate. Longa estreou no último dia 1º.

No longa, o ator de 26 anos é Antônio, que após terminar sua relação de longa data com Sofia (Bianca Comparato), descobre que superar o término não é tão simples. Da psicanálise cognitiva ao Tinder, passando pelo tarja-preta, o protagonista explora ferramentas contemporâneas para esquecer a ex.

O carioca se encontrou de vez no cinema só no ano passado com O Filme da Minha Vida, de Selton Mello. Massaro está no ar como um dos protagonistas da novela Deus Salve o Rei, atual folhetim das 19 horas da TV Globo.

Entre a chegada na Capital e agenda no shopping, o ator conversou com o Blog sobre o filme, sua projeção no cinema e o papel da arte como resistência do complicado momento político brasileiro.

Como o Antônio chegou para você?

(Foto: Divulgação)

Faz dois anos que a gente filmou. O Pedro Coutinho me procurou porque ele tinha ouvido de mim numa conversa com o Bruno Mazzeo, a gente tinha acabado de fazer novela. O Pedrinho foi me procurar, achou que eu tinha o perfil. Vi o roteiro, marcamos um café e fomos seguindo o papo.

É um personagem um pouco diferente do que você tem feito.

O Antônio é um personagem que o que mais tem de diferente… Tenho feito muita coisa de épocas específicas ou coisas que não são necessariamente realistas. E o Antônio tá num contexto completamente urbano, contemporâneo, realista. Já tem essa pegada diferente.

O Antônio atravessa um momento em comum com muita gente. Há proximidade entre vocês?

Eu acho que é engraçado porque a gente faz um trabalho, principalmente no cinema que só muito tempo depois você vai ver o resultado e a consciência da coisa vai se formando mesmo depois de ter feito o trabalho. Agora é a etapa mais linda, que é quando chega no público.

Agora eu vejo mais proximidade porque eu talvez tenha passado por mais experiências que o Antônio passou. Ele se vê nesse momento, após o término, que você tem que se confrontar não mais com o outro, mas com você mesmo. Você não tem mais o outro. O que me encanta no filme é exatamente isso porque é um percurso de amor de próprio. Brinco que é uma comédia não romântica. Ele tenta lidar com o término e descobre que o amor que ele tem que construir é com ele mesmo.

Bianca Comparato, Pedro Coutinho e Johnny Massaro nos bastidores do filme (Foto: Divulgação)

Você faz novela, passou pelo teatro e tem feito cinema. E “Todas as Razões Para Esquecer”, em especial, teve um orçamento reduzido. O que muda na dinâmica?

A maior diferença entre teatro, TV e cinema é o tempo. Enquanto na TV você faz 20, 25 páginas de texto por dia, no cinema você grava três, quatro páginas por dia. Você tem mais tempo e isso naturalmente muda tudo. Você faz as coisas de outra maneira. E o filme realmente teve um orçamento baixíssimo, foi feito no amor e na guerrilha. E todo mundo quer que o filme aconteça, então torna a coisa ainda mais especial porque você vai tendo que lidar com as dificuldades que são muitas porque tem muita gente envolvida.

Isso resulta em algo mais íntimo e mais forte historicamente. Até porque no nosso País, a gente sempre precisou filmar com pouco dinheiro. Taí o Cinema Novo que não nos deixa mentir. Tem uma parte linda disso porque as dificuldades acabam resultando em partir de outros princípios, de um desejo muito grande da coisa acontecer. As pessoas não têm noção de quantos profissionais estão envolvidos nesse processo que dependem do cinema. É um pouco triste e ao mesmo tempo reflete tanto da nossa cultura.

O cinema é importante para fixar as coisas. Eu costumo pensar nos meus personagens de maneira próxima. Eu acho que eu não posso dar o que não tá dentro de mim. Todo mundo tem tudo, guardadas as devidas proporções. Todo mundo tem muitas cores, e eu fico tentando ver o que eu posso oferecer dentro dessa brincadeira.

Como o cinema entrou na sua vida?

Comecei atuando com 13 anos, fiz minha primeira novela e as coisas foram acontecendo. Quando fiz 17 entrei na faculdade de cinema, mas como plano b caso a carreira de ator não desse certo como planejava. O começo do meu entendimento de ator no cinema veio muito com o filme do Selton (Mello, O Filme da Minha Vida) embora meu desejo fosse muito anterior a isso. O mercado é muito difícil, muitos atores só fazem TV por falta de oportunidade no cinema. Felizmente tenho essa oportunidade fazer TV, cinema e teatro.

E você pretende se dedicar ao cinema como realizador?

Eu tô ansiando com calma esse momento. Amadurecendo esse desejo de não só escrever, mas de dirigir. Como ator a gente vai até certo ponto dentro do que a gente pode oferecer. A coisa da escrita, e sobretudo da direção, me parece que eu poderia ter mais espaço para falar, pra ter um discurso. Como ator estou num lugar mais passivo. Tenho sentido vontade de colocar um olhar próprio, mas entendo que isso é um caminho.

Falta lugar de fala para o ator?

Não é isso. Por mais que o ator possa contribuir, é uma questão prática.

(Foto: Jorge Bispo)

O que você tem visto no cinema? Há algo que te chama mais atenção?

Eu gosto de bastante coisa e eu tento ser o mais aberto possível para as experiências que o cinema pode me proporcionar. Gosto de ver tudo, desde o filme uruguaio ao coreano, passando pelo blockbuster. Tem muitas formas de fazer cinema e muita gente fazendo. Mas você não vai ficar me vendo dizer algo específico que me inspira ou algo favorito, tento realmente estar o mais aberto a tudo.

Você não tem um filme da sua vida?

(Risos.) Gosto muito de Os Sonhadores, do (Bernardo) Bertolucci. Hoje mesmo falei dele mais cedo. Me influenciou bastante, vira e mexe me vem à cabeça.

Como você vê esse momento político que o País atravessa?

Eu acho que esse momento não é diferente de nenhum outro momento que a gente passou no País. Isso que me deixa mais estarrecido e incomodado. Estamos vivendo uma repetição histórica e as pessoas não percebem o que está acontecendo. De novo, as mesmas pessoas trabalhando na manutenção dos seus próprios poderes e interesses. Eu tô bastante preocupado porque não vejo perspectiva de melhora.

A gente tá vivendo uma situação louquíssima no Rio (de Janeiro) com a intervenção militar e a mídia abraçando, assim como foi na ditadura. A gente já viveu isso. Não é novo e nem é distante, é bastante louco. A gente fica de mãos atadas porque as coisas são muito maiores do que nós indivíduos. E em uma sociedade que nem nos enxerga como indivíduos.

Mas o Brasil teve seus momentos em que o povo foi à rua. Você, sendo de uma geração jovem, vê isso acontecendo em um futuro próximo?

Espero que sim e acho natural que sim. Embora eu não consiga dizer ao certo da onde isso poderia surgir. É tudo tão elaborado e tão podre, tão profundo o que está por trás de tudo isso que eu realmente não consigo entender pra onde a gente vai e nem como. Fico no meu cantinho tentando fazer o melhor possível dentro do que eu posso fazer. Nos pequenos atos, dentro das pequenas políticas. Ter o máximo de respeito pelo outro, que é o que falta. Essa galera não respeita nada, nem ninguém. São pessoas que matam a possibilidade de um futuro melhor quando desmatam florestas. Eu fico pensando, será que o (presidente Michel) Temer não pensa nos próprios filhos ou netos? E as pessoas que ele vai deixar aqui? Até onde vai o egoísmo desses políticos corruptos? É muito desesperador. É uma ganância que eu não compreendo. Acho tudo uma loucura.

E o que isso significa para o fazer cinematográfico no Brasil?

Eu acho que nesse contexto político vai ser mais difícil fazer cinema, e ainda mais importante fazer porque é um espaço de reflexão. Acho que a gente vai precisar bastante pensar sobre como fazer cinema, o que fazer e como seguir. O cinema foi, é e vai ser sempre um espaço pra pensar sociedade, assim como o teatro. Me parece que teremos que ser ainda mais fortes.

Veja o trailer do filme.

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