Fora da Ordem

5 livros para ler em um dia, de Chico Buarque a Conceição Evaristo

Chico Buarque (Foto: Leonardo Aversa/Divulgação)

Em tempos de isolamento social, há quem faça sua lista de livros para compartilhar e até reforce a meta de leitura para o ano. Abraçando essa tendência que se formou nos últimos dias, o Blog lista cinco livros possíveis de ler, cada um, em um dia. Um romance, dois livros de ensaios e os dois últimos de contos.

De Chico Buarque a Conceição Evaristo, passando pelas palavras de um dos mais importantes líderes indígenas do Brasil e chegando até o ultrarromantismo brasileiro. Tem livro pra todo gosto. Com exceção do último da lista, que li ainda na adolescência, todos foram leituras que fiz entre o fim de 2019 e os primeiros meses deste ano.

Como falam numa rede social de poucas palavras, segue o fio.

Essa Gente, Chico Buarque
(Companhia das Letras, 2019)

Essa Gente é o primeiro livro de Chico Buarque após vencer o Prêmio Camões 2019, um dos mais relevantes quando se fala em literatura de língua portuguesa. Autor de títulos como Budapeste (2003) e Leite Derramado (2009), Chico escreve no seu mais recente trabalho sobre Manuel Duarte, um escritor decadente vivendo em um Rio de Janeiro colapsado pelo Brasil pós Eleições de 2018.

O escritor que gosta de bater perna no Leblon está para ser despejado, mas a escrita de Chico trata esse e outro conflito, o afetivo, com leveza, quase como se o protagonista não estivesse longe dos privilégios. Há um teor tragicômico e estrutura reflexiva que faz com que a leitura seja genuinamente divertida.

Para quem lê mais atentamente aos discursos, é possível identificar pequenas doses de machismo e preconceitos enraizados no dia a dia. Principalmente quando falamos de personagens tão distantes do contexto de vulnerabilidade social. Fica para a imaginação do leitor pensar o que é criação e o que é referência direta a personalidade de Duarte. Digo, Buarque.

Djamila Ribeiro (Foto: Marlos Bakker)

Pequeno Manual Antirracista, Djamila Ribeiro
(Companhia das Letras, 2019)

A filosofa Djamila Ribeiro é hoje uma das principais vozes quando se fala no combate ao racismo, além de ser referência quando o assunto é feminismo. Eleita pela BBC britânica uma das 100 mulheres mais influentes do mundo, a autora de O que é lugar de fala (2017) e Quem tem medo do feminismo negro? (2018) entende a necessidade de ser didática em tempos de extremismo.

Em novembro último, ela lançou Pequeno Manual Antirracista, livro que traz 11 lições breves para entender as origens do racismo e como combatê-lo. Dentre os temas estão atualidade do racismo, negritude, branquitude, violência racial, cultura, desejos e afetos. Também discute, além disso tudo, o agravamento quando uma mulher negra entra em questão.

Um exemplo disso é que, no capítulo que abre o título, a filósofa destaca que “Simone de Beauvoir, em referência a Stendhal, autor que segundo a filósofa atribuía humanidade às suas personagens femininas, dizia que um homem que enxergasse a mulher como sujeito e tivesse uma relação de alteridade para com ela poderia ser considerado feminista”.

Ela conclui que o raciocínio também pode ser usado para refletir sobre o antirracismo, “com a ressalva de que sobre a mulher negra incide a opressão de classe, de gênero e de raça, tornando o processo ainda mais complexo”.

Ideias para Adiar o Fim do Mundo, Ailton Krenak
(Companhia das Letras, 2019)

Para o líder indígena Ailton Krenak, é preciso adiar o fim do mundo para contar mais histórias. Ou contar mais histórias para adiar o fim do mundo. Não importa a ordem dos fatores, o sentido aqui é garantir a manutenção da memória como permanência.

Nascido na região do Rio Doce, Krenak critica a sociedade enquanto a “humanidade que não reconhece que aquele rio que está em coma é também o nosso avô”. Usa o desastre socioambiental da nossa época para ressignificar a diversidade e o reconhecimento da existência humana como mais uma existência num imenso e plural bioma.

O livro de 88 páginas é uma adaptação de duas conferências e uma entrevista realizadas em Portugal, entre 2017 e 2019.

Olhos D’água, Conceição Evaristo
(Pallas, 2015)

Há na literatura de Conceição Evaristo um Brasil quase irreal para quem vive longe das zonas periféricas mais vulneráveis. É esse Brasil, no entanto, que está o País de muita gente que sai para trabalhar todos os dias sem a certeza de que vai voltar para casa. Seja pela violência urbana, seja pelas intervenções policiais que especificamente ajudam a compor essa violência.

Para contar histórias da população negra periférica no Brasil, Conceição Evaristo se apega a mães, filhas, avós, amantes e toda uma população que não encontra as mesmas oportunidades de quem nasce nas chamadas “áreas nobres” das capitais. São essas as personagens que fazem Olhos D’água tão verossímil para parte da população brasileira quanto absurda para outra.

O livro expõe a condição afro-brasileira sem rodeios e romantizações de um pedaço do Brasil que não se deixa invisibilizar pela sua grandeza, apesar de toda subalternização ainda forte, herança da condição escravista. Histórias de Conceições, Marielles, Dandaras, de tantas outras. É tudo real demais, vulnerável demais, ainda que ficcional. É plural também.

Olhos D’água é, portanto, leitura essencial para entender esses Brasis a partir de quem sentiu e ainda vê a discriminação racial, de gênero ou de classe. Repleto de questões sociais e existenciais que ainda irão repercutir por muito tempo.

Noite na Taverna, Álvares de Azevedo
(Domínio público, 1855)

“Onde me levas?”, pergunta Macário. Satan, sem dar voltas, responde: “A uma orgia. Vais ler uma página da vida, cheia de sangue e de vinho — que importa?” No momento seguinte, Macário se depara em uma sala fumacenta, com cinco homens ébrios sentados a uma mesa. “Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas, umas lívidas, outras vermelhas”.

É este o cenário que se forma para que, ao longo de sete contos, Álvares de Azevedo narre uma Noite na Taverna no melhor estilo ultrarrômantico brasileiro. Uma antologia um tanto quanto gótica, mórbida mesmo. Publicada em 1855, três anos após a morte do autor.

Influenciado pelos românticos europeus Byron e Shelley, Azevedo expõe todo pessimismo e ambiência composta pela expectativa da morte em um de seus trabalhos mais memoráveis. Curiosamente escrito durante o período em que estudou na Faculdade de Direito de São Paulo, entre 1848 e 1851. O livro está disponível em domínio público.

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