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O caldeirão do beato

Fac-símile do livro

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Entre 1936 e 1937, o Ceará viu o desmonte de uma das iniciativas messiânicas mais importantes da história: o Caldeirão de  Santa Cruz do Deserto, liderado pelo beato José Lourenço. Na próxima sexta-feira, 16 de setembro, o historiador  Régis Lopes lança livro sobre o tema

O contingente policial saiu de Fortaleza, em 1936, com direção ao Cariri. As ordens eram claras: dissolver a comunidade liderada pelo paraibano José Lourenço Gomes da Silva, conhecido entre a população como beato José Lourenço. No Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, todos trabalhavam pelo bem coletivo e os frutos eram divididos. Um modelo de igualdade e participação social tão forte que, em pouco tempo, assustou os grandes proprietários de terra. Intrigados com a possibilidade de perder mão de obra barata, os latifundiários evocaram polícia e opinião pública. Com o apoio da imprensa, todos começaram a acreditar: o Caldeirão precisava ser destruído o quanto antes.

Entre 1936 e 1937 ocorreu uma das perseguições mais ferrenhas da história cearense. Casas foram queimadas, camponeses foram mortos, pessoas fugiram para dentro das matas. A invasão policial e a dissolução da comunidade são temas do livro O Massacre do Caldeirão – 11 de setembro de 1936, que será lançado amanhã pelo professor e pesquisador Régis Lopes. Ele se dedica a pesquisas sobre o tema desde o fim da década de 1980. “O que me chama mais atenção é o fato do massacre ter sido feito dentro da lei. A polícia agiu de acordo com o que se esperava da polícia. Inclusive, os jornais da época elogiaram muito a ação policial. Pois pensava-se que o Caldeirão seria um Canudos (comunidade fundada por Antonio Conselheiro, na Bahia). Quando a polícia invadiu, não havia armas, não tinha o que se condenar nesse sentido, então, ficou uma circunstância muito estranha”, pontua Régis.

Fac-símile do livro

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O beato José Lourenço era um fiel seguidor do padre Cícero. As terras onde foi instalada a comunidade, distantes 33 quilômetros do Crato, foram, inclusive, uma doação do líder religioso. Com a grande seca de 1932, mais pessoas chegaram ao local. O grupo só crescia. “Geralmente se coloca o Caldeirão como fato importante da história do Ceará. Mas não é apenas um fato importante para a história do Ceará ou do Brasil. É importante para a história da humanidade. Não é um fenômeno regional. É o lugar onde se praticou o cristianismo da forma mais radical, mais legítima. Em Canudos tentou-se praticar essa igualdade, mas a comunidade cresceu muito, tinha comércio, muitos habitantes. Canudos é importante, claro, mas não chegou a atingir essa prática de igualdade como no Caldeirão”, descreve Régis.

Para o professor Domingos Sávio Cordeiro, da Universidade Regional do Cariri (Urca), o Caldeirão deixou um importante legado entre os movimentos sociais do campo. “Como um conjunto simbólico de experiências e lutas libertárias por melhores condições de vida”, pontua. Durante os estudos de mestrado e de doutorado, Domingos se dedicou a imagem da comunidade para remanescentes (pessoas que viveram no Caldeirão) e contemporâneos (pessoas que viveram no Cariri à época do Caldeirão). Entre os dois grupos, explica o professor, a divergência de informações é gritante. Quem viu a comunidade de fora, em geral, apresentava lembranças parecidas com os registros oficiais. “Muitas vezes carregadas de estigmas e descriminações.”, diz Domingos, que leciona no curso de Ciências Sociais.

“Havia intolerância para uma possibilidade de uma sociedade, ou parte dela, funcionar sob outros valores. O argumento usado na reunião que deliberou a ocupação e a invasão do Caldeirão é que o local poderia se tornar uma nova Canudos. Era o medo do Comunismo. Houve uma circulação de boatos projetando, inclusive, que no Caldeirão existiam armas vindas de Moscou. Todo esse clima de boataria teve a intenção de fazer uma morte moral, que antecedeu a morte física do Caldeirão, que veio logo em seguida”, explica Domingos.

No sábado, 17 de setembro, a 21ª turma do Curso de Licenciatura em Teatro do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) apresenta a montagem Caldeirão da Santa Cruz do Deserto. A peça, que iniciou temporada pelo Ceará em julho, resgata memórias de sofrimento sobre massacre e descreve a união em torno do beato José Lourenço. O texto é de Oswald Barroso e a coordenação artístico-pedagógica de Lourdes Macena

Serviço
Lançamento do livro O Massacre do Caldeirão – 11 de setembro de 1936
Quando: amanhã, 16 de setembro, às 17 horas
Onde: Museu de Arte da UFC (av. da Universidade, 2854 – Benfica)
Preço de lançamento: R$ 10

Espetáculo O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto
Quando: sábado, 17 de setembro, às 19 horas
Onde: Theatro José de Alencar (rua Liberato Barroso, 525 – Centro)
Entrada gratuita

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