Leituras da Bel

O Mestre e o Mercedes

Stephen King

Stephen King

Por Hamlet Oliveira (do blog Cinema às 8)

Stephen King é um autor que há décadas já transcendeu das páginas de seus livros. Com grande apelo para adaptações, as histórias do estadunidense povoam desde seriados até filmes cultuados. Dentre seus clássicos, o filme Christine, o carro assassino é um dos longas mais lembrados da sessão da tarde, apesar do seu conteúdo adulto. Aos 69 anos e sem dar sinal algum de descanso, o autor lançou em Mr. Mercedes em 2013, mais uma vez trazendo um veículo marcante. A assombração aqui, contudo, não está no sobrenatural, mas na maldade do próprio ser humano.

Mundialmente conhecido pela alcunha de “mestre do terror”, Mr. Mercedes marca a primeira aventura de King pelo gênero policial. Protagonizado pelo detetive aposentado Bill Hodges, a história se desenrola após Brady Hartsfield, um serial killer em desenvolvimento, assassinar oito pessoas durante uma feira de emprego, a bordo de um Mercedes roubado. A partir desse fato, o detetive irá voltar a ativa para impedir um novo atentado, enquanto é ameaçado diretamente por Brady. O livro possui duas continuações: Achados e Perdidos e O Último Turno, ambos já lançados no Brasil pela Suma de Letras.

Autor de escrita ágil, o ritmo acelerado dos livros de King se repete aqui: o leitor é jogado de imediato na ação, na noite do atentado do Mercedes. É satisfatório ver que, para sua estreia no gênero, King se encontra confortável. A trama segue rapidamente, sem rodeios, e com a adição bem vinda de coadjuvantes em momentos chave da história, evitando uma eventual quebra de ritmo. Sendo ele próprio um leitor voraz, King certamente soube extrair o máximo de influências como Agatha Christie e George Simenon.

Situado em 2010, o contexto social dos Estados Unidos do período é bem abordado. Em alguns momentos, o leitor é lembrado de que o país vivia uma recessão econômica. A situação justifica a grande fila para empregos na noite do atentado, além de enriquecer a trama como um todo, ao adicionar camadas às situações apresentadas.

A ação é narrada pelos pontos de vista dos dois personagens principais, Hodges e Hartsfield. Com mais de 60 anos, o ex-detetive é figura carimbada: fora de forma, entediado em casa, com pensamentos suicidas constantes. O contato, por meio de ameaças, feito com o Mr. Mercedes (título que Brady ganhou nas páginas dos jornais) é o que ajuda a manter a sanidade de Hodges.

Definir Brady é, infelizmente, simples. Explico: por ser racista, machista, dono de uma personalidade odiosa, fica fácil para o leitor sentir antipatia imediata pelo personagem. Por ser reprimido sexual, ele acaba se tornando muito semelhante a Harold Lauder, de A Dança da Morte, outro livro de King. Igualmente jovem, os pontos em comum incomodam por aparentar ter faltado ao autor um pouco mais de tempo para construir uma personalidade diferenciada para Brady.

Apesar da fraqueza na construção de Brady, as ações do antagonista são coerentes com sua proposta, o tornando uma ameaça real para os personagens. Motorista de um caminhão de sorvetes, chega a ser divertido ver como King é capaz de brincar com a sensação de segurança do público, mostrando como os piores monstros podem estar nos lugares mais inesperados.

Ainda que não seja uma das melhores obras de Stephen King, Mr. Mercedes é um suspense competente, com bons personagens e uma história envolvente. Por mais que Brady seja um vilão simplório, a narrativa de King é capaz de atrair qualquer leitor em busca de sentir aflição durante a leitura. E deixar, claro, uma sensação de temor a cada Mercedes visto na rua.

mr-mercedes-stephen-kingServiço
Mr. Mercedes
King, Stephen
Quanto: R$35,90

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