Leituras da Bel

Ao pé do ouvido: Baladas para leitores e Bossa Nova

Por Lilian Martins*
Em 2018, a música brasileira completará 60 anos de sua mais importante revolução fonográfica. O ano era 1958 e a revolução se chamava: Bossa Nova. Lançado sob a influência de ritmos como o samba, jazz, choro e blues, o gênero musical se tornou um dos movimentos mais conhecidos no mundo e um dos mais influentes da história da música popular brasileira.

O emblemático disco lançado em agosto daquele ano, trazia músicas como Bim bom, de João Gilberto (1931), e Chega de saudade, de Tom Jobim (1927 – 1994) e Vinicius de Moraes (1913-1980), canção que, no ano seguinte, intitularia o primeiro álbum de João Gilberto, lançado pela extinta gravadora Odeon, com contracapa assinada pelo próprio Tom Jobim.

Embora sem apelo popular e considerada por alguns críticos como música de elite, a Bossa Nova expressava os desejos de um Brasil mais moderno e em crescente expansão política, econômica e cultural através do governo de Juscelino Kubitschek, a criação da Petrobrás e a inauguração da Bienal Internacional de Artes de São Paulo.

A batida diferente do violão de João Gilberto sintetizava o surdo e os tamborins do nosso samba reverenciando, assim, a tradição musical brasileira desse gênero que “transita entre as dimensões antagônicas da resistência e do controle social e trafega nos intercursos entre a potência criadora e as engrenagens normatizadoras do mercado”, segundo o autor da trilogia “Uma História do samba”, o audacioso biógrafo Lira Neto (1963). O minimalismo estético da Bossa Nova, simbolizados pela dupla banquinho e violão, é também reflexo de outra tendência artística da década de 1950, no País, que preservava o mínimo como experimentação da tradição, a reinventando em outra nova possibilidade de expressão. Era o movimento literário concretismo.

Bossa Nova e Concretismo

No Ceará, o concretismo se articulou a partir do escritor José Alcides Pinto (1923 – 2008). Ao lado dos autores Antônio Girão Barroso (1914 – 1990), Pedro Henrique Saraiva Leão (1938) e Horácio Didímo (1935), o movimento também integrou as artes plásticas e o cinema cearenses por meio da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP) e do cineasta Eusélio Oliveira (1933 – 1991).

Do grupo dos concretistas paulistas estavam os irmãos Haroldo (1929 – 2003) e Augusto de Campos (1931) e Décio Pignatari (1927 – 2012). No Rio de Janeiro, havia outro grupo formado por Ferreira Gullar (1930-2016), Reinaldo Jardim (1926 – 2011) e José Lino Grünewald (1931 – 2000). É de 1958 a publicação do Plano-piloto para poesia concreta em Noigrandes nº4 em que explica: “a poesia concreta visa ao mínimo múltiplo comum da linguagem, daí a sua tendência à substantivação e à verbificação”.

Mas, o concretismo não se limitou apenas à literatura, se estendeu também às artes visuais, ao cinema, à arquitetura e à música. Artistas como Tom Zé (1936), Walter Franco (1945), Caetano Veloso (1942) e Arnaldo Antunes (1960) compuseram álbuns concretistas em suas produções. Confira na íntegra o – ainda mal compreendido – disco Araçá Azul (1973), de Caetano Veloso, retirado de catálogo em razão do rechaço ao seu experimentalismo concretista e relançado, 15 anos depois, em 1987.

João Gilberto

Essa ousadia minimalista é o que dá o tom à nossa bossa nova magistralmente entoada por João Gilberto, presente na voz amorosa – internacionalmente reconhecida – de Tom Jobim, no cancioneiro de Roberto Menescal (1937) e Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994), na coloquialidade das letras do poetinha Vinicius de Moraes que ao lado de Baden Powell (1937 – 2000) escreveram um verdadeiro mantra ao povo brasileiro, alertando-nos: “É melhor ser alegre que ser triste”em uma música de nome mais auspicioso impossível: Samba da bênção. ¡Ojalá Brasil!

 

E que – desafinado ou de modinha – nos seja de muitas bênçãos, este novo ano, ao ritmo da brasileiríssima Bossa Nova, enchendo os nossos dias de graça em um balanceio ensolarado sempre a caminho do (a)mar.

Aumenta o som e boas leituras!

*Lílian Martins é jornalista, tradutora, professora, pesquisadora e militante em Literatura Cearense. Mestre em Literatura Comparada pela UFC com a dissertação: “Com saudades do verde marinho: O Ceará como território de pertencimento e infância em Ana Miranda”, vencedora do Prêmio Bolsa de Fomento à Literatura da Fundação Biblioteca Nacional e Ministério da Cultura (2015) e do Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) em 2016. É uma apaixonada por rádio, sebos, pelos filmes do Fellini, os poemas de Pablo Neruda e outras velharias…

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