Leituras da Bel

Leia o conto “Shangai Não Me Espera”, do escritor cearense Antônio LaCarne

Por Antônio LaCarne*

Antônio LaCarne é cearense, professor de língua inglesa e graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Recentemente, o escritor lançou seu mais novo livro, Exercícios de Fixação, pela AR Publisher. Antônio aceitou disponibilizar um dos contos que integram o livro para o público do Blog Leituras da Bel. O livro pode ser adquirido no site da editora (clique aqui!) ou com o autor (@antoniolacarne).

Leia “Shangai Não Me Espera”:

Antônio LaCarne autografando durante o lançamento de Exercícios de Fixação

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O príncipe selvagem é um homem irremediavelmente cansado de si mesmo, clichê e atento ao mundo ao seu redor: carros estacionados, porteiros distraídos, políticos corruptos, texugos, amigos delirantes e artistas. Mas o príncipe selvagem também é artista, faz performances, devora purê de batatas e queijo gorgonzola, não toma banho regularmente, cita de cabeça Proust, Saussure, Schopenhauer e aquela poeta de nome difícil.

A mulher que ele amou na adolescência hoje se dedica com afinco ao marido obeso mórbido e aos três filhos campeões nas olimpíadas de matemática. Ele sempre quis ser campeão na vida (mas isso é segredo), – como quem lê para si mesmo, entediado, e vira a página do livro, sufocando os próprios medos, as crises de identidade, os porquês mal respondidos.

O príncipe selvagem encara o mundo sob a perspectiva da sorte, deixando de lado as escolhas erradas, o jogo do bicho, as barras – como se a vida fosse uma determinação dos deuses. E ele acredita em Deus, acredita em Nossas Senhoras, pois ao frequentar a missa, suas preces são atendidas, custe o que custar, graças ao carinho misericordioso celestial. Antes de dormir, lânguido, sob o colchão de molas pontiagudas, fecha os olhos e se imagina modelo húngaro e dotado, musculoso, desejado, marquinha de sunga.

Acredita que as pessoas enxergarão nele algum resquício do que elas anseiam: beleza estampada em nossas mais profundas taras, guardadas com carinho em nossos arquivos pornográficos no computador.

Ele não se cansa, pedala freneticamente sua bicicleta rumo ao emprego que lhe paga as dívidas. Leva consigo o terror e a esperança de testemunhar uma vida monótona tomando forma. A vida que se baseia em golpes do destino, na horrível educação das pessoas que não respondem ao seu bom dia. Então ele corre veloz sem olhar para os dois lados ao atravessar a avenida, e por milésimos de segundos, enxerga o que existe por trás das estrelas.

Ou então:

Este relato não representa alguma coisa morta e viva. Não representa algo zumbi. Um pedaço de você que eu quero. Rasgar a boca com os meus botões.

Ultrapassar montanhas e armadilhas. Os ursinhos de pelúcia anseiam o teu bem. Eles deitam e se despem sozinhos – corações mutilados –, almas de algum nome sem voz. Eles querem que eu me torne um hiato enquanto alço voo, requebro na zumba, ou quando misturo Agatha Christie com Stephen King e sou qualquer coisa.

Os deuses te ferem, mas não me decoram as asas. O mar percorre os continentes. Quero que você me leia enquanto mastiga um mamilo e joga uma dor para escanteio. Sou livre enquanto posso. Shangai não me espera. Os travesseiros são as minhas pedras. Não estou triste com o fim da história que é este começo. Desde já os olhos se infiltram, imploram por penhascos infrutíferos, deixam as pernas de quem espera sempre abertas. Durante a encruzilhada, damos marcha à ré, calculamos a quantidade de dentes e nos apaixonamos por pessoas improváveis.

Esse príncipe é homem nu na cachoeira, pedinte sem voz, monstro que hiberna no Vaticano. Dou meu telefone ao primeiro que encontro. Ele não é meu salvador, mas me encara com seus músculos, desmente meus provérbios quando cito o Salmo 90 por proteção.

Vocês não compreendem uma única palavra.

O príncipe selvagem imita fôlego e respiração. É mais um que sente inveja e se encanta demasiadamente, arbitrariamente, inconvenientemente. Repete as mesmas fábulas por não ser mais criança no labirinto do desconhecimento. Uma vez disse que eu estaria sozinho para sempre, mas encontrei na internet o meu amor no cume do mesmo penhasco que descrevo. O meu amor é o meu verdadeiro príncipe, resoluto, de nádegas murchas como confete pós-carnaval pisado. Shangai ainda não me espera. Retruco, finjo que não me importo quando ele se satisfaz com outras companhias. Ele não sabe que fomos importantes, e mesmo após aquela explosão ao atravessar a avenida, ele continua a enxergar o que existe por trás das estrelas.

Eu também quero enxergar.

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Antônio LaCarne

é cearense, formado em Letras Inglês pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Autor de Elefante-Rei: Poemas B (CBJE, 2009), Salão Chinês (Patuá, 2014); Todos os poemas são loucos (Gueto Editorial, 2017) e Exercícios de fixação (AR Publisher, 2018). Participou das antologias “A polêmica vida do amor” (Oito e meio, 2011) “A nossos pés” (7Letras, 2017), “Golpe: antologia-manifesto” (Nosotros Editorial, 2017) e “Rotatórias” (Galeria Sem Título Arte, 2018).

A capa do livro

 

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