Leituras da Bel

Leia o texto “Nelson, o boêmio”, produção do escritor cearense Bruno Paulino

Por Bruno Paulino*

Nelson Gonçalves

Agora só de ouvir falar sobre Nelson Gonçalves já fico entusiasmado. Muitas vezes chaguei a confundi-lo com o dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues, trocava o nome e a imagem de um pelo outro. O Cantor era só uma lenda para mim – ainda é, dele só conhecia algumas músicas famosas que me assustavam por ter tanta dor de cotovelo contida na letra (embora seja eu um sujeito que curte essa vibe).

Lembro de antigas tardes de sábado de meu pai fazendo a barba e escutando fitas k7 de Nelson Gonçalves como numa espécie de ritual, mas aquele som nunca tinha me fisgado.

Aconteceu que quando eu tinha uns 15 anos, adolescente curioso para ouvir tudo o que fosse estranho e diferente do forró de plástico imposto pelo circuito comercial, peguei um CD do Nelson Gonçalves com um amigo emprestado (que agora não lembro mais qual era o CD, nem muito menos quem era o amigo) provavelmente era um amigo mais velho. Cheguei em casa, sentei no sofá e coloquei o CD pra tocar satisfeito. Quando literalmente viajava na “Volta do boêmio” ouvi a voz sobressaltada de outro amigo – não foi o que me emprestou o CD – era um desses roqueiros bitolados, que indo me visitar abordou-me como quem flagra: “O que diabos é isso que tu tá ouvindo?”. Sua cara era de susto, espanto, um quase pavor por me flagrar ouvindo aquela música.

Então, respondi com calma e precisão cirúrgica “É Nelson Gonçalves, um cara das antigas que faz um samba-canção assim meio punk-undergraund” foi a única classificação que me veio à mente na hora.

Bom, a classificação que dei não faz o menor sentido (ou faz?), mas Nelson Gonçalves foi um de meus ídolos juvenis, no mínimo um ídolo fora da época, pois o que geralmente todo mundo da minha geração curtia ouvir além do forró de plástico era Titãs, Legião Urbana, Cazuza e os Mamonas Assassinas, que eu também gostava. Só que de certo modo já entedia (e sentia) que por trás de todo saudosismo cantado por Nelson Gonçalves, em sua obra continha e emanava um grito de juventude (uma juventude passada, claro!), mas uma juventude perdida, desenganada, saudosa, entregue as paixões, a dor do amor, a dor de existir, sei lá, não consigo explicar, tem algo de jovem e contestador em sofrer por amor… Talvez ele representasse para mim o que os escritores da geração beat americana representavam para os jovens americanos que os liam – que exagero e comparação mais sem pé nem cabeça!

Ah! O fato é que também enxergava nas músicas de Nelson Gonçalves – o Frank Sinatra tupiniquim – o retrato de jovens decadentes no fundo de um bar, no coração a áurea boêmia.

Era assim que me sentia aos 15 anos ouvindo Nelson Gonçalves. De certo modo eu fazia parte da contracultura.

***

Bruno Paulino é cronista e aprendiz de passarinho

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