Leituras da Bel

Leia “Nota de rodapé”, texto da escritora cearense Zélia Sales

Por Zélia Sales*

Foto: Aurélio Alves

Era maio. Minha mãe metia o pente no meu cabelo. Ela tinha um jeito especial de dominar a rebeldia dos meus fios. Colocou as presilhas, prendeu a tiara, que imitava uma coroa. Certificou-se de que estava firme. Talvez estivesse tão feliz quanto eu, mas havia uma nuvenzinha nos seus olhos. Talvez porque não pudesse me acompanhar. A roupa de cetim azul-claro estava na sacola sobre a mesa.

Eu fazia a quarta série no Instituto Coração Imaculado de Maria. Naquele dia haveria o encerramento do mês mariano. Seis meninas haviam sido escolhidas para participar da coroação de Nossa Senhora. Ana Amélia, minha melhor amiga, era uma delas. Mas amanhecera abatida por uma de suas frequentes crises de asma. No meio da tarde bateu na nossa porta um rapaz trazendo uma sacola de papel e um bilhetinho. Minha amiga me pedia para substituí-la. Na sacola a túnica, o torçal, as asas, a tiara.

A escola era ali pertinho, mas saí com sobra de tempo. Não andava, saltitava. Já era quase noite, mas parecia que um sol generoso brilhava nos muros, na cara das pessoas.

As cadeiras tinham sido arrumadas no pátio, algumas pessoas iam chegando, se acomodando, se abanando, falando baixo umas com as outras. Na frente se achava uma mesa coberta de panos brancos que, armados, lembravam nuvens, um céu de sedas, tules, estrelas de papel laminado. Num plano mais alto, a imagem da Santa. Também havia flores, velas, música… e anjos correndo de um lado pro outro numa feliz agitação. As mães tentavam segurar as filhas nas cadeiras, cuidavam para que ninguém, com um nariz ou uma asa quebrada, empanasse o brilho da festa.

Dirigi-me para a parte de trás do altar. Ali fora improvisada uma escadinha por onde um dos anjos deveria subir para coroar a Santa. Irmã Cibele dava instruções para outra freira, que tinha nas mãos um castiçal. Ocupada que estava, não deu por minha presença. “Irmã Cibele…” Dei um puxãozinho no seu hábito, “Irmã Cibele…” Ela virou-se “O que você está fazendo aqui?” Sei que gaguejei, mas ela entendeu tudo juntando o que expliquei sobre a asma da Ana Amélia, sobre o bilhetinho. Levantei o braço mostrando-lhe a sacola, disse que ia ali, num instantinho estaria pronta. Ela me olhou lá do alto da sua incredulidade, seus olhos se estreitavam, assim como fazem os míopes para ler as letras mais pequenas. Eu era uma nota de rodapé. “Minha filha, me dê aqui esta sacola”- a voz metálica, contida -, já tirando a bolsa do meu braço magro. “Você já viu anjo preto?”

Foi então que o inferno se abriu debaixo dos meus pés.

Eu não achava chão. Tinha a impressão de que todos os barulhos emudeceram, que tudo se movimentava em câmara lenta, que todo mundo olhava pra mim. Meu instinto foi procurar o caminho de casa. Contornei o altar aos tropeços. Ainda pude ver, de frente, a Santa. Ela também me via? Estava lá, em cima do pedestal: branca, complacente, serena.

***

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Zélia Sales
Já fez algumas conquistas na vida e diz que uma das mais ousadas é escrever, publicar, chegar ao leitor, que é sua maior motivação. É formada em Letras e atua na formação de leitores em escolas públicas. Nas voltas que o mundo deu, virou também dona de casa, esposa, mãe, escritora. Enquanto escreve, corrige redações, refoga um frango, procura os filhos pelo Whatsapp. Acredita que escrever é assumir uma conduta subversiva. Ela integra o livro Relicário – produção comemorativa pelos 30 anos do caderno Vida&Arte.

 

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