Leituras da Bel

Leia “As cinco pedrinhas”, texto da escritora cearense Zélia Sales

As cinco pedrinhas
**Por Zélia Sales


Eu era bem pequena, meu pai fez uma viagem para um lugar chamado Pau Branco, passou três dias fora de casa. E me trouxe de presente cinco pedrinhas. Brancas, polidas, iguais. “Olhe, num se parece com ovinho de rolinha?” Pareciam com qualquer coisa que eu quisesse. Meus irmãos não se queixaram dessa exclusividade, e minha mãe desdenhou, “Grande coisa…” Eu fazia tudo com aquelas pedrinhas, inclusive botava-as na boca todas de uma vez.

De outra vez ele chegou da cidade, já era quase noite, trazia uma coisa enrolada num papel pardo. Puxou uma cadeira, sentou, botou o pacotinho sobre a mesa, desatou o cordão. Era um tecido branco (minha mãe chamava de corte) estampado com aviõezinhos vermelhos. Entregou a minha mãe o tecido dobrado, “Pra fazer um vestido pra Dequinha”.

E foi com esse vestido que eu o acompanhei à cidade, íamos a pé. Meu pai não tinha cavalo, nem jumento, nem nada. Minha mãe advertiu: “Essa menina não bota lá…” Acabei indo. Ele, por mais que tentasse, não conseguia andar na minha marcha, se adiantava no caminho, eu no meu passinho de menina. Ele andava, parava para me esperar, pegava na minha mão. Não me lembro quanto tempo levamos para chegar, se ele impaciente me pôs no tuntum. Muitos anos depois, lhe perguntei: “ Pai, você se lembra daquela vez que a gente veio pra Itapajé? Eu não conseguia lhe acompanhar…” E ele: “Foi?”

Domingo vou quebrar a quarentena de quase cinco meses, vou visitá-lo. Fez 85 em março, e eu não fui lhe dar os parabéns, é do grupo de risco do Covid. Me ligaram: “Venha, ele está magro, triste assustado.” Dia dos Pais, gostaria de lhe dar de presente cinco pedrinhas, para ele fazer delas o que quiser, inclusive transformar em anos de vida. Às vezes penso que aquela viagem não tenha sido para um lugar tão longe, eram muitos quilômetros entre o Sítio São João e a cidade de Itapajé. Era muito chão, muita imaginação. Mas a viagem mora aqui, nas minhas lembranças, junto com outro desejo: meu pai me esperando, eu – menina – chegando, ele me pegando pela mão.

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Zélia Sales
Já fez algumas conquistas na vida e diz que uma das mais ousadas é escrever, publicar, chegar ao leitor, que é sua maior motivação. É formada em Letras e atua na formação de leitores em escolas públicas. Nas voltas que o mundo deu, virou também dona de casa, esposa, mãe, escritora. Enquanto escreve, corrige redações, refoga um frango, procura os filhos pelo Whatsapp. Acredita que escrever é assumir uma conduta subversiva. Ela integra o livro Relicário – produção comemorativa pelos 30 anos do caderno Vida&Arte.

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