Leituras da Bel

Leia “E se o Natal emborcar?”, texto da escritora cearense Zélia Sales

E se o Natal emborcar?
Por Zélia Sales*

Ilustração: Jéssica Gabrielle Lima

Lá em casa nunca nos levaram a acreditar em Papai Noel. Não havia árvore iluminada, nem ceia, nem presentes.
Havia, sim, um vestido novo. E o presépio – a gente chamava de lapinha – montado no fundo da igreja, ao lado da sacristia. Todo ano estava lá a estrela, os Reis Magos, São José, Nossa Senhora e o Menino na manjedoura. A Madrinha nos contava a história do nascimento de Jesus, enfeitando um pedaço aqui, esquecendo uma parte acolá, ficava mais encantada do que nós, para ela tudo era misterioso e sagrado, parecia não notar que aquele lago era um espelho margeado por um punhado de areia que alguém colhera na beira do rio ali perto. Para nós a graça maior estava na vaquinha, nos bezerrinhos, nos carneiros tão pichototinhos, pareciam de verdade.

Depois tinha a missa, que não acabava nunca, a Madrinha com os olhos pregados no altar, eu e minha irmã bocejando impacientes. E depois da missa tinha a feira, uma feira noturna, imaginem! Sem as barracas de frutas, sem os sacos de feijão, sem os porcos fedorentos, sem as galinhas barulhentas. A rua iluminada pelas lâmpadas fluorescentes das bancas de miudezas. Havia bonecas, bolas, carrinhos, espelhos, gigolés, tubos de linha e até naftalina… só não havia dinheiro. Parte das minguadas cédulas da Madrinha iam-se na barraca de abacaxis. O homem enfiava um palito na rodela dourada e botava na nossa mão, a gente enfiava os dentes, e a Madrinha: “Se abaixe!”, a calda espirrando no vestido novo. Ali ao lado, outro que vendia refresco com pão doce. As garrafas coloridas pelo vermelho do suco quase morno eram demais convidativas. E lá se ia o dinheirinho da Madrinha…

Foi num certo Natal. De barriga cheia, minha irmã botou os olhos em cima de um brinquedo, “Eu quero, Madrinha, me dá, é tão bonitinha…” Era uma pata com uma enfieira de patinhos, em tamanhos decrescentes, cada um de uma cor, interligados como se fosse um trenzinho, com rodinhas e tudo, a coisa mais linda do mundo. Mas eu sabia das impossibilidades da Madrinha. Minha irmã, mais nova do que eu, talvez não tivesse essa consciência. E abriu o berreiro. Chorava e puxava a Madrinha pela saia e pedia e implorava. Eu tentei lhe dizer que tinha desistido de desejar a boneca de trança e que… Mas ela nem olhou pra mim, chorava alto, a cara toda lambuzada.

Pegamos o caminho de casa.

Agora, longe do brilho e do burburinho da feira, o Natal era escuro e silencioso. Pouca gente na rua, as pessoas haviam se recolhido para a ceia. No interior das grandes casas, havia pequenas luzes que piscavam, havia risos distantes. Minha irmã, também feliz, arrastava por um cordão a enfieira de patos. Eu seguia um pouco mais atrás, segurando na mão da Madrinha. Aqui, acolá, numa irregularidade da calçada, um dos patinhos emborcava. Resignada, eu corria para desvirar.

***

Zélia Sales
Já fez algumas conquistas na vida e diz que uma das mais ousadas é escrever, publicar, chegar ao leitor, que é sua maior motivação. É formada em Letras e atua na formação de leitores em escolas públicas. Nas voltas que o mundo deu, virou também dona de casa, esposa, mãe, escritora. Enquanto escreve, corrige redações, refoga um frango, procura os filhos pelo Whatsapp. Acredita que escrever é assumir uma conduta subversiva. Ela integra o livro Relicário – produção comemorativa pelos 30 anos do caderno Vida&Arte.

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