Plínio Bortolotti

A ditadura e o homem comum

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Meu artigo semanal publicado na edição de hoje (23/6/2011) do O POVO.

Livro em que Nando conta a sua história, acompanhado de outros textos. Peguei uma dedicatória dele e, para não perder a viagem, também a assinatura de seu irmão, Zico (clique para ampliar)

Um brasileiro comum
Plínio Bortolotti

Durante a reunião em que foi decidida a decretação do Ato Institucional nº 5, o AI-5, apertando ainda mais o laço da ditadura militar sobre o país, o único a se insurgir contra as novas medidas foi Pedro Aleixo, vice-presidente civil do general Costa e Silva. O ministro da Justiça, Gama e Silva, redator do ato, questionou se Aleixo desconfiava da integridade do presidente em fazer uso criterioso do instrumento discricionário. Aleixo responde: “Não tenho nenhum receio em relação ao presidente, eu tenho medo do guarda da esquina”.

Pensando nessas palavras fui à Assembleia Legislativa assistir ao ato em homenagem a Fernando Antunes Coimbra, o Nando, que teve sua promissora carreira de jogador de futebol interrompida por perseguições mesquinhas.

O Programa Nacional de Alfabetização (PNA) – do governo João Goulart – visava à erradicação do analfabetismo no Brasil. Utilizando o método Paulo Freire – que parte da realidade concreta dos alunos para ensiná-los a ler e escrever -, atraiu milhares de jovens idealistas para o seu quadro de professores. Nando foi um deles.

A ditadura viu perigo no método “politizado” de ensinar, pois quando os de baixo tomam consciência de sua realidade, tendem a não aceitá-la docilmente. Extinguiu o PNA e passou a perseguir os seus “subversivos” professores.

Se Nando – que via deslanchar sua carreira de atleta – foi colhido no contrapé da história, quantos outros brasileiros não sofreram nas mãos dos “guardas da esquina” as mais desprezíveis perseguições, as mais sórdidas vinganças?

Se é justo exaltar os militantes que combateram abertamente a ditadura, que a muitos cobrou a vida, também é justo homenagear o homem comum, que muitas vezes caiu nas malhas arbitrárias da ditadura, sem conseguir atinar a razão dos desmandos a que foi submetido.

(Nando recebeu a homenagem em Fortaleza por ter jogado no Ceará Sporting, time que criou um centro cultural que devia servir de inspiração para outros clubes.)

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