Plínio Bortolotti

A síndrome da inauguração

Reprodução do artigo publicado na edição de 21/8/2014 do O POVO.

A síndrome da inauguração
Plínio Bortolotti

A administração pública brasileira padece de um mal chamado “síndrome da inauguração”. Políticos (de todos os partidos) adoram cortar uma fita, espocar fogos de artifício e fazer discursos quando entregam alguma “obra”. Depois, é o desmantelo: praças são abandonadas, ruas e rodovias ficam esburacadas e prédios tornam-se ruínas.

O assunto vem a propósito da matéria “Pelo menos 577 poços profundos estão desativados” (edição 10/8), revelando o descaso com um equipamento essencial para minorar o sofrimento das pessoas atingidas pela seca no Ceará. E a situação pode deteriorar-se, pois previsões meteorológicas indicam período de poucas chuvas para o próximo ano.

Outro problema que ataca o chamado “homem público” é a falta de memória: ligeiro para fazer promessas, sonso para lembrar-se delas e distraído na hora de cumpri-las.

Vejam o levantamento de algumas notícias publicadas pelo O POVO, a partir do ano passado: diretor da Sohidra fala em construir mais de 300 poços por ano (15/4/2013); presidente Dilma Rousseff anuncia verba para a construção de 250 poços pelo Dnocs, Exército e CPRM (9/7/2013); Defesa Civil do Estado anuncia que vai perfurar 40 poços (23/8/2013); programa Água para Todos divulga que 395 poços serão perfurados, sob a responsabilidade da Seagri (28/1/2014); Defesa Civil promete recuperar 346 poços até novembro (15/4/2014).

Esses poços prometidos foram construídos; as obras de recuperação foram concluídas? Difícil saber, pois administradores públicos gostam de prometer, ver a notícia ser replicada e, depois, ficam confiando na falta de memória, ou na dificuldade que a população tem de reivindicar seus direitos, mesmo os mais elementares, como ter água para beber.

Observem ainda a quantidade de siglas e agentes responsáveis(?) por esse tipo de obra. Quando se tem quase 600 poços desativados por falta de manutenção, é de se duvidar que exista um mínimo de controle e acompanhamento desses projetos.

Recomendado para você

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *