Plínio Bortolotti

Políticos são dependentes das grandes empresas

Reprodução da coluna “Menu Político”, edição de 5/10/2014, do O POVO.

CarlusPolíticos são dependentes das grandes empresas
Plínio Bortolotti

Com a proximidade do término da campanha eleitoral, o primeiro turno realiza-se hoje, logo se saberá se os 11 candidatos a presidente da República alcançaram a cifra de gastos de R$ 916 milhões, conforme previsão entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A propósito, como dizia o sociólogo Robert Kurtz, se “A política é sempre cúmplice do dinheiro, já que não tem renda própria”, de onde vem os vultosos recursos para bancar campanhas cada vez mais caras e mirabolantes? Resposta: da doação de grandes empresas, principalmente daquelas que tem negócios com o governo (qualquer que seja ele), como mostra relatório produzido pela Transparência Brasil, assinado pelo seu diretor-geral Cláudio Weber Abramo.

Na campanha de 2010, por exemplo, entre as 21 mil empresas doadores, 30 delas foram responsáveis por R$ 521,6 milhões (R$ 628,4 milhões, corrigidos). O valor correspondeu a 37% do total de receitas de políticos eleitos. Isso mostra, segundo o relatório, a “medida desmesurada do poder de influência dos megadoadores”.

Em 2014, a campeã das doações a partidos e candidatos, até agora (até 18/9/2014), é a JBS, do grupo Friboi, que já desembolsou R$ 94 milhões, 6%do total de todas as doações. O valor já superou a marca de 2010, quando a JBS participou com R$ 83 milhões (valor corrigido), a maior parte dos recursos destinados a candidatos que saíram vitoriosos, incluindo a presidente, sete governadores, sete senadores, 40 deputados federais e 19 estaduais.

Nesta eleição de 2014, as 15 maiores doadoras contribuíram, direta ou indiretamente, para quase todos os partidos, à exceção dos marcadamente de esquerda (PCB, PCO, Psol e PSTU), indicando que as empresas veem neles pouca distinção ideológica, e que as doações são feitas com base na expectativa de vitória das siglas e dos candidatos. Assim sendo, os “partidos dominantes” são os que recebem mais recursos.

Ao fazer doação as empresas visam objetivos empresariais estratégicos. Em linguagem mais direta, apostam na obtenção do retorno do “investimento”, a partir da “boa vontade” daquele político beneficiado com seus recursos. São grupos que, de uma forma ou de outra, participam de negócios com o governo, e dependem dos “humores oficiais”, como diz o relatório. Longe que qualquer veleidade democrática, de contribuir com a “festa democrática”, as empresas olham somente para seus próprios interesses.

Até agora, a maior parte dos recursos foi destinada ao PT, que recebeu 29% do total doado pelas 15 empresas; seguindo-se o PMDB e o PSDB, que, em conjunto ficaram com outros 29%; o PSB, mais distante, foi aquinhoado com 6,2% das doações.

O relatório mostra ainda a rota das doações até chegarem aos beneficiários finais (os candidatos). Pela lei, a doação pode ser feita a diretórios de partidos, mas este tem de escriturar para quem repassa o dinheiro. Assim, um diretório nacional pode receber, digamos, doação R$ 100 mil, que repassa o valor ao diretório estadual; este, por sua vez, distribui R$ 50 mil entre vários candidatos – e outros R$ 50 mil para o diretório de outro partido coligado, que por sua vez… Por meio de gráficos, o relatório percorre esse tortuoso, porém legal, caminho e consegue mostrar qual o preciso interesse de cada empresa doadora em financiar determinados candidatos.

NOTAS

Relatório
O relatório completo da Transparência Brasil, com nome das principais empresas doadores, e link para os gráficos, pode ser visto aqui.

Sexo, cor e raça
Segundo o relatório, “esmagadoramente”, as 15 maiores doadores financiam políticos homens, brancos e com curso superior. Apesar de 44% dos candidatos a deputado federal ou estadual serem pretos e pardos, eles receberam, até agora, 17% do total doado.

O preço do horário “gratuito”
Levantamento do jornal carioca O Dia (27/9/2014) mostra que o horário “gratuito” de propaganda política custará este ano R$ 839,5 milhões, referentes à liberação de pagamento de impostos que as emissoras de TV obtém como compensação pelo uso do espaço.

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