Plínio Bortolotti

Como enfrentar o extremismo sem ofender a democracia?

Reprodução da coluna “Menu Político”, publicada no caderno “People”, edição de 22/11/2015 do O POVO.

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Plínio Bortolotti

O pior desses ataques terroristas, como a França sofreu no dia 13 deste mês, além da matança injustificável – sob qualquer ponto de vista -, que fanáticos realizam aos gritos de “deus é grande”, é que os fundamentalistas acabam alcançando mais um de seus objetivos: fazem com que governos lancem mão de dispositivos que cerceiam a liberdade a que se acostumaram as pessoas que vivem em países laicos e democráticos. Ao mesmo tempo, fortalecem o argumento da extrema-direita, e seu discurso um país “puro”, de ódio aos imigrantes.

O que os integristas odeiam é justamente o estilo de vida ocidental, que eles chamam de “decadente”, isto é, o direito de fazer sexo sem compromisso; de uma mulher determinar por si mesma o que quer fazer se sua vida; de uma pessoa declarar-se gay; de ironizar-se nos jornais a religião e a autoridade; de grupos de amigos irem a um show de rock ou à uma boate. Eles odeiam, enfim, a liberdade e a democracia.

Não foi por acaso que que o autodenominado Estado Islâmico escolheu atacar lugares frequentados por jovens em busca de diversão. Logo depois do atentado, o grupo emitiu um comunicado no qual assumia a autoria do ataque, afirmando que as áreas foram “especificamente escolhidas”, entre elas a casa de shows Bataclan, “onde centenas de idólatras estariam juntos em um festa da perversidade”, ou seja, assistindo a uma apresentação de bandas de rock.

E o perigo pode estar justamente em alguns remédios que os países atacados usam  para combater ataques terroristas. O que fazer? Restringir as liberdades? Suspender a privacidade? Permitir que o Estado controle todas as correspondências, todas as caixas de e-mail, todas as ligações telefônicas, todas as conversas pelos meios eletrônicos? E o que fazer com cada “suspeito” detectado? Vigiá-lo? Chamá-lo à chefatura de polícia? Prendê-lo? E como criar uma estrutura para fazer tudo isso sem descambar para um estado policial?

Portanto, o desafio para os países democráticos é combater o terrorismo ao mesmo tempo em que preservam a liberdade e os fundamentos da democracia, pois a extrema-direita vai reivindicar medidas que porão em risco esses princípios. Na França, defensores desse método avançam, como é o caso do secretário-geral dos Republicanos, o ex-ministro Laurent Wauquiez, defendendo que cerca de cinco mil pessoas fichadas pelo serviços de informação como simpáticas aos movimentos integristas sejam presas em “centros de detenção”. Mas a pergunta imediata que se tem de fazer é: Guantânamo reduziu ou fez aumentar o número de ataques ou de recrutados para esses movimentos?

E é justamente a esse beco sem saída que o Estado Islâmico parece querer levar as democracias. E, para esse tipo de gente, é bom que do outro lado esteja a sua contrafacção da extrema-direita. Pessoas como George Bush, o presidente dos Estados Unidos (2001-2009), que pode ser considerado o patrono desses grupos terroristas – da Al Qaeda ao “Estado Islâmico” -, fortalecidos na esteira das invasões ao Afeganistão (2001) e Iraque (2003) e da “guerra ao terror”, movimento que teve o apoio de países ocidentais, como a França e a Inglaterra.

O mundo estaria mais seguro depois da morte de Bin Laden, disse o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Ficou?

É claro que a resposta não é simples, e justamente por isso devem ser rejeitadas as soluções simplórias.

NOTAS

Esquerda
Se é preciso rejeitar as teses da extrema-direita, algumas posições da “esquerda” também merecem críticas. Sob a desculpa do “multiculturismo” ou de uma “culpa” que atribuem ao Ocidente pelas desgraças do mundo, procura-se justificar da recusa de imigrantes em aceitarem as regras do ensino laico ao ataque contra o jornal Charlie Hebdo, ou barbaridades contra mulheres e minorias, como parte da da “cultura do outro”, que teria de ser “respeitada”.

Submissão
Recém-traduzido no Brasil, o livro Submissão, do escritor Michel Houellebecq, narra a ascensão ao poder na França, em aliança com a esquerda, do partido (fictício) Fraternidade Muçulmana, em um futuro próximo (2022).

Data
Devido ao prazo de fechamento do caderno, entreguei este texto na terça-feira (17/11/2015). De lá para cá, muita coisa pode ter acontecido.

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