Plínio Bortolotti

Paula Nei: onde começa a molecagem

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Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 28/2/2016 do O POVO.

CarlusPaula Nei: onde começa a molecagem
Plínio Bortolotti

A convite da Academia Aracatiense de Letras, mais especificamente do acadêmico Mauro Oliveira, professor do Instituto Federal (IFCE) – articulista deste jornal -, assisti à reunião do grêmio literário, na qual foi lançado o livro Paula Nei – O primeiro humorista brasileiro, de Jader Soares, o comediante conhecido como Zebrinha.

Abstraindo-se o exagero tipicamente cearense do título, o texto faz uma boa compilação dos causos atribuídos a Francisco de Paula Nei (1858-1897), possibilitando entrever-lhe o perfil e sua vida boêmica e desregrada, que lhe cobrou a conta aos 39 anos de idade. Nascido em Aracati, tornou-se celebridade no Rio de Janeiro, então capital do Reino – e depois da República.

Literato sem nunca ter escrito um livro, Paula Nei “foi o maior talento verbal de seu tempo”, no dizer de Raimundo Menezes (A vida boêmia de Paula Nei). Autor de apenas sete poemas, em um deles legou a expressão que se tornaria marca registrada de Fortaleza: “A loura desposada do Sol”.

Mesmo de longe, continuava a amar a terra alencarina a ponto de dizer: “Pelo Brasil sou capaz de morrer! Pelo Ceará sou capaz de matar!” Também era amante da cultura francesa, o que revela em carta a um amigo: “Leio jornais franceses para dar-me a ilusão de viver em Paris”.

Nessa carta, em que conta como são suas virações para ganhar a vida, pode-se observar a sua verve: “Continuo a fazer reportagens para os jornais, um de manhã, outro de tarde, inimigos irreconciliáveis em política, mas unha e carne em solecismos e outras barbaridades gramaticais. Ambos pagam mal. Cavo notícias como os porcos de Perigord descobrem túberas: fuçando nos lameiros. Quando não as encontro (as notícias), invento-as”. (A citação aos “porcos de Périgord” refere-se a uma região da Itália*, rica em trufas, ou túberas, um fungo caríssimo, usado na culinária, em cuja procura os porcos eram usados para localizá-las em raízes de árvores.)

Paula Nei estudou Engenharia e Medicina, abandonando os dois cursos. De Engenharia, assistiu apenas a uma aula, desistiu quando o professor encheu duas lousas com cálculo e anunciou o resultado no último espaço disponível: “Igual a zero”. Revoltado, Paula Nei reclamou: “Quer dizer que o senhor passou uma hora nesses dois quadros para no final dar em nada? Igual a zero? Sinto muito, eu desisto”.

Reinando na rua do Ouvidor, por onde transitava toda a intelectualidade brasileira no século XIX, Paula Nei tinha um “secretário”, um sujeito que vivia de “morder” (pedir dinheiro) aos amigos, chamado Rocha Alazão. Paula Nei firmou até um contrato escrito com ele. Uma das cláusulas certificava: “Ordenado não há. Passarei algum quando for possível, e poderás morder os meus amigos, que são pessoas de alta qualificação (…)” Em troca disso, o secretário, entre outras obrigações, tinha de cuidar da correspondência, “votar por mim nas eleições”, “auxiliar-me em raptos e outras aventuras de amor” e, “em dias de aperto, levar meu relógio ao prego”.

Quando foi proclamada a República, Paula Nei, cheio dos paus, estava na sacada do jornal Gazeta de Notícias, junto com outras personalidades. Do povo aglomerado embaixo, começaram os apelos: “Fala Nei, fala Nei”. Cambaleando, Paula Nei avança para pronunciar o discurso, tropeça e é amparado por um oficial do Exército. Profético, anuncia: “Concidadãos! O povo amparado pelo Exército: eis a República”. (Em Cabeças-chatas, de Leonardo Mota)

NOTAS

Química
Na aula de Química, o professor pergunta:
–Conhece alguma aplicação da água, senhor Paula Nei.
–Dizem que serve para beber.

Popular
Quando de sua morte, o jornal A República escreveu: “Não é talvez dizer muito afirmar que ele foi o moço mais popular do Rio de Janeiro e um dos que melhor justificaram essa popularidade”.

Nome de rua
Fortaleza homenageia Paula Nei com nome de rua (Aldeota) e de praça (Henrique Jorge). No Rio de Janeiro (Realengo) e em São Paulo (Aclimação) também existem ruas com o nome do humorista cearense.

* A região de Périgord fica na França e não na Itália, como anotado, me alerta  o professor Eduardo Diatahy B. de Menezes, atento leitor. (Corrigido às 18h15min de 28/2/2016.)

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1 comentário

  • jorge motta disse:

    Que belo artigo. Eu, nascido no Rio de Janeiro, carioca do Distrito Federal, não conhecia a existência de PAULA NEI. Pura ignorância. Fico feliz ao saber agora. Felicito o professor Mauro Oliveira e o autor do artigo, Plínio Bortolotti, dois grandes cearenses.

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