Plínio Bortolotti

As piadas que derrubaram o comunismo

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Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 6/3/2016 do O POVO.

CarlusAs piadas que derrubaram o comunismo
Plínio Bortolotti

Talvez o amigo não saiba, mas as grandes editoras pagam às livrarias pelos melhores locais de exposição de seus livros nas vitrinas e balcões das lojas.

Por isso caso queira se surpreender, fugindo dos vorazes best-sellers de vários tons, tem de ir lá para o fundo, nas prateleiras mais baixas, aquelas em que se têm de sentar no chão (nem os simpáticos banquinhos as grandes redes de livraria oferecem mais) para escacaviar os livros espremidos uns contras os outros.

Foi assim que deparei com Foi-se o martelo – A história do comunismo contada em piadas, de Ben Lewis, na seção “Comunicação”, talvez pelo fato de o autor ser jornalista da emissora britânica BBC.

Como na semana passada escrevi “Paula Nei: onde começa a molecagem”, sobre o cearense que iniciou a tradição humorística desta terra alencarina, tornando-se referência do humor pátrio, pensei: “Ôpa, aqui está um tema para a próxima coluna”. Vejam como estou sempre pensando em você, caros leitores, além – é claro – do interesse que mantenho pelos temas relativos à Revolução Russa (1917).

Mas qual seria a relação de importância das piadas de comunistas com a revolução bolchevique e suas consequências?

O livro é um tratado sobre o piadismo como arma utilizada pelos dissidentes em todo o Bloco Soviético – e também usada em defesa do sistema: o “humor positivo”, a favor do regime, incentivado pelos dirigentes comunistas.

Para Lewis, “o comunista é o único sistema político a ter criado um filão próprio e internacional de comédia”. E o autor se propõe a uma tarefa ambiciosa: encontrar uma prova que vincule “o hábito de contar piadas à derrocada do sistema” soviético, o que ele vai tentar fazer nas 430 páginas do livro.

Mas não se assustem os eventuais interessados: o livro tem a fluidez dos bons textos jornalísticos e, quem quiser pular as partes mais teóricas, terá garantidas boas risadas das piadas que permeiam todas as páginas.

E, por vezes um sorriso amargo, pois o ditador soviético Stalin também apreciava o senso de humor, que ele exercitava contra os subordinados, como, ao passar por um deles nos corredores do Kremlin, dizendo: “Mas eu pensei que já tivesse mandado fuzilar você”. O que fez o pobre homem passar várias noites sem dormir. Por vezes, depois da “brincadeira”, a ameaça se cumpria.

Uma revisora, na Romênia sob Nicolae Ceausesco, contou a Lewis que a principal tarefa dela era verificar se o nome do ditador saía corretamente no jornal: uma ligeira alteração para “Nicholai” podia acabar em prisão, pois significa “pinto pequeno”. Como diria o Macaco Simão: piada pronta.

E mais piadas.

Eufórico, um amigo diz a outro ter conseguido emprego em Moscou, no topo da sino de Ivan, o Grande. Ficar lá em cima esperando para dar as badaladas da Revolução Mundial. “Deve ser tedioso”, argumenta o outro. “É, mas é um trabalho para a vida inteira”.

Na URSS, um secretário escuta gargalhadas no gabinete de um juiz. Entra e pergunta o que está acontecendo:
– Acabei de ouvir a melhor piada da minha via.
– Então, me conte.
– Não posso, acabei de condenar uma pessoa a cinco anos de trabalhos forçados por fazer isso.

A pena padrão por contar piadas de comunistas era de cinco anos na União Soviética. Lewis coletou vários casos de pessoas que foram presas apenas por ouvi-las. A polícia chegava a um caso e outro por meio de denúncias.

O autor não conseguiu uma estatística precisa sobre a quantidade de pessoas enviadas ao Gulag por contar piadas, mas calcula que tenham sido milhões, nos quase 80 anos de regime comunista.

NOTAS

Gulag
No Gulag, um prisioneiro, condenado a 15 anos, reclama que é inocente. Seu companheiro de infortúnio: “É mentira, os inocentes são condenados a apenas cinco anos”.

Cachimbo
Militantes da Geórgia visitam Stalin. Quando a delegação sai, ele não encontra seu cachimbo. Chama o chefe da polícia Laurenti Béria e manda atrás dos homens. Algum tempo depois o ditador encontra o cachimbo embaixo da mesa e avisa Béria. “Tarde demais, camarada Stalin, metade da delegação confessou o crime e a outra metade morreu no interrogatório”.

Correção
Na coluna da semana passada “Paula Nei: onde começa a molecagem” escorreguei ao afirmar que Périgord é uma região italiana. Leitor atento, o professor Eduardo Diatahy B. de Menezes me corrige: fica na França.

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