Plínio Bortolotti

Empresas generosas; políticos inocentes

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 3 de abril de 2016 do O POVO.

CarlusEmpresas generosas; políticos inocentes
Plínio Bortolotti

Creio que já contei por aqui o meu hábito de trocar ideias regularmente com o Guálter George, editor executivo do Núcleo de Conjuntura (Política) do O POVO. Em tempos de crise, essas reuniões informais têm sido diárias, agregando-se outros jornalistas ao grupo, da própria editoria e de outras, que se aprochegam, como é o caso de Fátima Sudário, coordenadora da equipe de repórteres especiais da Casa, e de Erick Guimarães, diretor adjunto da Redação.

Para vocês verem como um encontro entre divergentes, porém dialógicos, é muito positivo: posso garantir que o nível de acerto de nossas análises é bastante elevado. Com a ponderação de cada um, é possível ter um quadro um tanto mais completo da situação e abrir os olhos para detalhes que alguém percebe e para outros passam em branco.

Depois dessas conversas, sempre tenho assunto para meus artigos, como foi o caso em que antecipei o desenho de um acordo PMDB/PSDB, que se seguiria ao possível impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Outro tema de nossas conversas, antes que viesse a público a lista da Odebrecht, é que seria explosiva a “delação premiada” de Marcelo Odebrecht, caso ele resolvesse falar. Não se tratava, por óbvio, de pajelança adivinhatória. E por que seria explosivo o depoimento de Marcelo Odebrecht? Porque o negócio espirraria para todos os lados.

Somente os cegos por inocência ou por excesso de esperteza ou os acometidos de cegueira ideológica aferravam-se fervorosamente ao dogma de que o PT era o pai, a mãe e o avô da corrupção. Digo isso, pois, a “lista da Odebrecht”, com mais de 20 partidos, é conhecida há muito tempo, desde que as empresas foram obrigadas a tornar transparentes as doações que faziam para campanhas eleitorais.

É público, porém não notório o suficiente, que, entre as dez maiores empresas doadoras para campanhas políticas, cinco são construtoras: OAS (R$ 75,082 milhões), Andrade Gutierrez (R$ 61,987 milhões), UTC (R$ 43,786 milhões), Norberto Odebrecht (R$ 33,431 milhões) e Queiroz Galvão (R$ 45, 185 milhões). Referente à eleição de 2014; entre parênteses o valor doado.

Observe-se ainda, além da prodigalidade, que as empresas são absolutamente “democráticas” na distribuição do dinheiro. Elas não olham para diferenças ideológicas, nem se o partido recebedor está no governo ou é oposição. Assim, tanto recebe dinheiro o “comunista” PCdoB como o direitista DEM e, por óbvio, os grandes partidos: o que está no governo (PT) e aquele que está sempre nas biqueiras (PSDB).

Os partidos e candidatos, todos eles, alegam que receberam recursos por meio de “doações legais”, o que se saberá quando forem concluídas as investigações. Mas será que nenhum deles – situação ou oposição – desconfiou que tamanha generosidade talvez escondesse interesses inconfessáveis? Políticos calejados acreditaram piamente que as construtoras tornaram-se ávidas por fortalecer a democracia financiando todos os partidos? Ou que, de repente, haviam decidido a socializar sua riqueza?

O fato é que frases como “eu não sabia”; “só recebi doações legais”; “apareço na delação por vingança”; “fui citado porque sou (do governo ou da oposição)” soam cada vez mais falsas, e cada vez menos gente acredita em inocência ensaiada. E também fica cada vez mais difícil saber onde essa situação vai desaguar.

É possível que a presidente caia e surja um “acordão” entre PMDB e PSDB ou Dilma continue se arrastando até 2018. Situações assim costumam ser porta aberta para aventureiros de toda espécie, mas esperemos que os brasileiros estejam vacinados contra os salvadores da pátria.

NOTAS

Lava Jato
Outro efeito possível é que a Lava Jato seja cada vez mais pressionada para suspender seus trabalhos, pois gente de quase todos os partidos ver-se-á implicada nas investigações, se mais documentos vierem à tona ou Marcelo Odebrecht resolver falar.

Renda
Lembrando o sociólogo alemão Robert Kurz: “A política é sempre cúmplice do dinheiro, já que não tem renda própria”.

Crédito
Da Transparência Brasil. As quinze principais empresas doadoras e o financiamento dos partidos; Poder econômico e financiamento eleitoral no Brasil.

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