Plínio Bortolotti

Quando o PT será o que prometeu ser?

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Reprodução do artigo publicado na edição de 14/4/2016 do O POVO.

HR,1Quando o PT será o que prometeu ser?
Plínio Bortolotti

Pesquisa do Datafolha mostrando Lula em primeiro lugar em quatro cenários traçados pelo instituto para as eleições presidenciais de 2018 – e a queda acentuada dos candidatos do PSDB – repete o fenômeno das eleições de 2014. (O ex-presidente só perde um pouco a força com Marina Silva no cenário: em um deles, fica empatado; em outro, um ponto percentual abaixo, dentro da margem de erro.)

O que acontece é o seguinte.

A chamada “nova classe média”, os beneficiados com acesso à universidade, (incluindo a política de cotas) e os favorecidos pelos programas sociais podem estar putos com o PT. Estão frustrados com a corrupção que assolou o governo, imaginando o que mais poderia ter sido feito se a dinheirama não houvesse sido desviada.

Entretanto, eles desconfiam em demasia do PSDB, temendo que o partido faça uma limpa nos programas sociais, que acabe com direitos trabalhistas, entre outras medidas. Assim, quando os tucanos ameaçam chegar ao governo, os “de baixo” se arrepiam.

Além do mais, existe o efeito Lula. A tendência é culpar a pessoa do presidente pelos erros e acertos de um governo. E Lula deixou a Presidência com percentual altíssimo de aprovação. Portanto, se – para muita gente – Dilma é antipática ou incompetente, Lula continua sendo “o cara”.

Um amigo, jornalista, contou que o porteiro do prédio dele, com O POVO em punho, abordou-o para comentar a conjuntura política. Declarou-se decepcionado com a corrupção petista, mas repetiu o bordão “roubar todo mundo rouba” e fez sua análise: “Presidente bom mesmo era o Lula, o erro dele foi deixar aquela mulher lá”.

É claro que a eleição ainda está muito longe, em termos de tempo político, e muita coisa vai acontecer. Além de ser necessário lembrar que a chamada opinião pública é volúvel: tanto afaga quanto apedreja.

No mais, PT deveria refletir sobre quantas oportunidades seus eleitores estão dispostos a conceder-lhe para que o partido seja o que prometeu ser.

PS. Para ver a pesquisa, clique aqui.

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5 Comentários

  • Paulo Marcelo Farias Moreira disse:

    1.
    Prometeu apenas para chegar ao PODER.
    Fábio Campos:A esquerda chegou ao poder vendendo uma esperança: a mudança da cultura política do País. Milhões compraram essa preciosa mercadoria. Era falsa. Era uma ilusão. Já em 2005, com o mensalão, o método ficou muito claro. Nada de mudar a política. Nada de transformar a atrasada cultura política profundamente arraigada no país. O caminho foi se adequar a essa cultura.
    2.
    Prometeu apenas quando estava em Palanque, pois acredita até que Cuba e Venezuela são exemplos de democracia.
    Fábio Campos: a esquerda estabeleceu o consumo como fundamento de sustentação da economia brasileira. Não deixa de ser uma contradição interessante. Afinal, o consumo tem como pressuposto a inclusão. Excluídos não consomem. Mas, a inclusão não tinha bases sólidas.
    3.
    Promete apenas para ganhar eleições.
    Fábio Campos: Desde a campanha eleitoral de 2014, o País, a oposição e o Governo sabiam muito bem que o Brasil estava entrando em uma quadra econômica nefasta. Em nome do projeto de poder, a candidata Dilma sustentou que a crise era uma invenção da oposição. Milhões compraram o discurso da presidente. No entanto, como é de sua natureza, a realidade se impôs rapidamente.
    4.
    Fábio Campos: Aos poucos, diante da imposição dos fatos, a presidente foi admitindo aqui e acolá problemas na economia. Claro, sem nunca fazer autocrítica. No entanto, há um componente chocante nessa história: no período entre a eleição de 2014 e hoje, absolutamente nada de relevante e significativo foi feito para tirar o País do caminho que o levava ao brejo movediço. Nada.
    5.
    Ou seja, o PT faz apenas o que sempre fez: tenta derrubar qualquer governo que eles chamam de plantão. Mesmo que tenha sido eleito por eles. Já estão preparando terreno para negar qualquer vínculo com DILMA, aquela mulher: Presidente bom mesmo era o Lula, o erro dele foi deixar aquela mulher lá.

  • carlos disse:

    Será que o Plínio Bortolotti não aderiu ao golpe porque está muito distante do plitica escandinava, que defendia, quando digo aderiu é porque os grandes conglomerados ou grupos de imprensa nunca tiveram nenhum compromisso com o povo e sim com seus próprios interesses, vejam muitos deles comprometidos com o fracasso que foi as privatizações das famosas teles do governo FHC, e presta serviço pra uma empresa que sustenta isso. que vemos aí.

    • Plínio Bortolotti disse:

      Amiguinho,

      O que penso sobre a conjuntura está no meu blog não tem nada a ver com “aderir” ao golpe, nem de assumir a narrativa do governo e seus adeptos. Mas claro, você não é obrigado a ler tudo, e tem o direito de opinar a partir de apenas um artigo, mesmo que veja apenas a árvore, imaginado que está vendo a floresta. Também não sou dono de nenhum “conglomerado” e, no Grupo de Comunicação O POVO, tenho liberdade para expor o que eu penso. E, se você prestasse atenção, em vez de ver “golpistas” em qualquer pessoa que tenha alguma divergência com você, já teria percebido que O POVO posiciona-se de modo bem diferente dos jornais do eixo Sul e Sudeste.

      Plínio

  • Paulo Marcelo Farias Moreira disse:

    Há pouco teve um post
    Seria Luis Fernando Veríssimo meu leitor acidental?

    De acordo com essas definições de direita e esquerda, me considero um liberal e discordo de muitas opiniões suas, mas é modéstia sua considerar leitor acidental, pois seu trabalho mostra competência, coerência, profissionalismo e seriedade.

    Assim, a lista de seus leitores aumenta.

    Parece que Elio Gaspari também é seu leitor.
    Veja o artigo dele de 18/04/2016, 4 dias depois.

    Quando foi que o PT perdeu o caminho de casa?

    Talvez em 1997, quando Lula chamou de “asneiras” as denúncias de que havia roubalheiras em contratos de firmas de consultoria com prefeituras petistas. Desde então, Lula e o comissariado fizeram uma opção preferencial pelo acobertamento e pela cumplicidade em todos os episódios em que a moralidade foi ofendida. Foi assim com as propinas que provocaram a morte do prefeito Celso Daniel, assim foi no “mensalão” e assim o PT se comporta diante da Lava Jato.

    Há um mantra em circulação: a honorabilidade pessoal de Dilma Rousseff está acima de qualquer suspeita. É verdade, mas pode-se aplicar o mesmo raciocínio ao general Emílio Médici (1969-1974). Ele foi um homem pessoalmente honrado. A ruína de sua biografia veio do campo da moral política. Médici nunca encostou a mão em ninguém, mas durante seu governo milhares de brasileiros foram torturados e mais de uma centena foi assassinada.

    Para felicidade do Brasil, os crimes dos governantes mudaram de eixo e, durante o consulado petista, o demônio foi para o meio do redemoinho da corrupção e das suas alianças com larápios que votaram pela deposição da presidente.

    Dilma era ministra de Minas e Energia quando um empresário narrou-lhe malfeitorias praticadas pela Petrobras. Ela respondeu: “Não posso me preocupar com pequenas ilegalidades”. Com o tempo, deixou de se preocupar com as grandes. Ela, Lula e o PT ficaram neutros contra a Operação Lava Jato. Esse foi um dos principais fatores de erosão da credibilidade dos companheiros. (O apoio de Temer à faxina do juiz Moro é coisa a ser conferida. Por enquanto, ele continua a ser um velho aliado de Eduardo Cunha.)

    O resultado de ontem é uma derrota de Dilma, do PT e daquilo que se chama de esquerda. Como sair dessa?

    Nos anos 1970, como Dilma, o uruguaio José (Pepe) Mujica estava na cadeia.
    Em 2010, Pepe elegeu-se presidente. Continuou vivendo na modesta chácara das cercanias de Montevidéu, dirigindo seu velho Fusca e brincando com Manuela, sua cachorra de três patas. Basta olhar para seu exemplo.

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