Plínio Bortolotti

Fiesp e Fiec: a locomotiva e o vagão

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 15/5/2016 do O POVO.

CarlusFiesp e Fiec: a locomotiva e o vagão
Plínio Bortolotti

Na coluna de 24/4/2016, sob o título “Fiesp/Fiec”, escrevi a seguinte e despretensiosa nota: “Não entendo por que a entidade representativa do empresariado cearense, a Fiec, acompanha alegremente as decisões de sua homóloga paulista, a Fiesp. Será que os empresários cearenses acreditam, de fato, que os interesses da avenida Barão de Studart são os mesmos da avenida Paulista?”

Supus que não fosse de muita importância o questionamento, porém, no domingo passado (8/5), a editoria de Economia publicou reportagem abordando justamente as diferenças de interesses econômicos entre São Paulo e o Nordeste. Foram ouvidos economistas e empresários, incluindo a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fiesb). A Fiec não quis se manifestar, antes de entregar um documento com reivindicações ao vice-presidente, Michel Temer (hoje, muito provavelmente, ele já estará na presidência; o fechamento do caderno deu-se antes da votação do afastamento da presidente Dilma Rousseff).

Como uma boa matéria jornalística, o repórter ouviu argumentos divergentes sobre o assunto. Ou seja, economistas que entendem não haver grandes diferenças de interesse entre o empresariado brasileiro e aqueles que veem especificidades que exigem tratamento diferenciado. É o caso dos que veem o Nordeste como uma região dependente de um “Estado mais atuante”, como provedor de subsídios ao setor produtivo, e de políticas sociais que melhorem a renda da população, aumentando a demanda por produtos e serviços.

Mas queria reproduzir aqui os argumentos de um interlocutor que há muito estuda as questões regionais e tem livre trânsito entre o empresariado, políticos e outros segmentos da sociedade e da economia cearense.

Para ele, “há uma boa diferença” entre a indústria nordestina e a paulista. Ele diz que o discurso da “união” entre o empresariado nacional, pois estariam em jogo os interesses do País, é “conversa fiada”. De que Brasil se fala?, pergunta. “Para o Sudeste, especialmente São Paulo, o Brasil é ele próprio. Entra governo, sai governo, é isso que tem prevalecido”.

Assim, segundo meu interlocutor, ainda vale, para São Paulo, a imagem da “locomotiva” que conduz o Brasil. “As outras regiões, sobretudo o Nordeste, funcionam como ‘vagões’; para elas, as medidas são apenas para contentar as lideranças políticas e empresariais e conter as pressões sociais”.

Continua afirmando que “São Paulo, da Fiesp”, responde por 32,1% do PIB do País, e o Ceará, da Fiec, 2%. Quanto à indústria, a situação é ainda pior: o valor adicionado bruto (PIB menos os impostos líquidos de subsídios) da indústria de transformação paulista representa 38,6% do total nacional, e o da cearense, 1,8%. Sem falar, acrescenta, que o perfil industrial de lá é moderno e diversificado, e o nordestino, bem tradicional e concentrado em poucos ramos de atividade. “Enfim, um terá tratamento de ‘locomotiva’, e o outro, de ‘vagão’”.

NOTAS

Chão de fábrica
Meu interlocutor também comentou a migração de indústrias para o Nordeste, especialmente para o Ceará. Ele diz que as empresas que se instalam por aqui, atraídas pelos incentivos ficais, trazem “praticamente só o chão de fábrica”. O restante, “o mais importante”, como diretoria, pesquisa e desenvolvimento, marketing e finanças, “fica por lá”.

Falem com o auxiliar
Ele disse ainda que o que viu “de mais sugestivo” sobre a importância que terão os assuntos do Nordeste no governo Temer foi publicado na coluna de Egídio Serpa, no jornal Diário do Nordeste. Temer, diante do pedido de um grupo de deputados para que as obras do São Francisco não fossem paralisadas, respondeu: “Tratem com o Geddel (Vieira Lima)”, cotado para assumir a Secretaria de Governo.

Falem com o presidente
No caso de São Paulo, continua ele, certamente, empresários ou deputados com reivindicações de seu Estado, seriam atendidos pelo presidente da República ou, “no mínimo”, por Henrique Meirelles, cotado para assumir o “todo poderoso” Ministério da Fazenda.

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