Plínio Bortolotti

Plano de poder da Igreja Universal está em marcha

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Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 6 de novembro de 2016 do O POVO.

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Em artigo publicado na edição de 30 de outubro deste jornal, analisando o resultado do segundo turno nas eleições na cidade do Rio de Janeiro, assinalei que a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) é um partido político que, escandalosamente, detém a concessão da segunda maior rede de televisão no Brasil, a Record. Bispo “licenciado” da Iurd, Marcelo Crivella (PRB) governará a cidade a partir de 1º de janeiro de 2018. A ascensão do bispo é um passo calculado da Iurd em sua pretensão de chegar à Presidência da República.

Em recente entrevista à Folha de S.Paulo, Christina Vital, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense, disse que a Igreja Universal mira o Judiciário em sua aspiração presidencial. Para ela, a Iurd quer nomear ministros do Supremo Tribunal Federal de perfil mais conservador para reprimir temas relativos às minorias e ao comportamento, como o aborto e a “pauta gay”, assuntos que, atualmente, são resolvidos pelo STF e não por leis votadas no Congresso.

A pesquisadora afirma que, a partir de 2014, importantes líderes evangélicos passaram a se candidatar a cargos no Executivo, pois apesar de bem representados no Legislativo, alcançam apenas um público específico. Na disputa para cargos executivos, ganham atenção mais ampla e diversificada. Isso explicaria a tentativa de Crivella em amenizar a sua imagem de religioso fanático, apresentando-se como moderado e tolerante com as causas homossexuais e também com outras religiões.

Esse roteiro, em direção ao centro do poder, já estava narrado em livro de Edir Macedo, líder da Universal, com o título “Plano de poder – Deus, os cristãos e a política”. Em 2009, publiquei resenha do livro em meu blog, que detalha o roteiro que se desenha agora.

Logo no início do texto, Macedo diz qual é a sua intenção: “Vamos nos aprofundar, através desta leitura, no conhecimento de um grande projeto de nação elaborado e pretendido pelo próprio Deus e descobrir qual é a nossa responsabilidade neste processo. (…) Desde o início de tudo Ele nos esclarece de sua intenção de estadista e de formação de uma grande nação”.

Afirma Macedo que a Bíblia “não se restringe apenas à orientação da fé religiosa, mas também é um livro que sugere resistência, tomada e estabelecimento do poder político ou de governo”.

Macedo diz que os cristãos brasileiros (ele considera somente os evangélicos como tais) estão à espera de um “libertador”, até porque, diz ele, “temos percebido, por parte da sociedade, que ser evangélico no Brasil ainda é como ser estrangeiro no Egito nos dias do Faraó”. Macedo candidata-se a controlar essa libertação, despachando suas legiões para abrir caminhos. Com sua eleição, Crivella deve ser convidado a sentar-se à direita de Macedo, de quem é sobrinho, e pode assumir o papel de Moisés.

Para esses caras, tomar o poder no Brasil seria um passo importante para “levar o Evangelho a todas as nações da Terra”. Ou seja, a Igreja Universal pretende instalar uma teocracia, pois em seus sonhos loucos (e perigosos) imagina ser essa a vontade de Deus, e como representante do Todo-Poderoso na Terra, cabe a seus integrantes executarem a tarefa.

Pode parecer maluquice, como também parecia risível aquele sujeito de bigodinho esquisito, líder de um pequeno partido, que costumava reunir-se com seu bando nos fundos de cervejarias na Baviera.

NOTAS

Terrível mal
Durante a campanha de Crivella veio à tona um livro que ele escreveu, “Evangelizando a África”, e vídeos, no qual ataca homossexuais e outras religiões de forma violenta. Para ele, a homossexualidade é um “terrível mal”, as outras religiões são “diabólicas” e a Igreja Católica prega “doutrina demoníaca”.

Rapazinho intolerante
Tentando se explicar, Crivella disse ter escrito o livro quando era um “rapazinho intolerante”: tinha 42 anos. Por óbvio, essas opiniões são as mesmas pregadas pela Iurd. Se Crivella parece renegá-las agora, o faz autorizado pela sua Igreja, escondendo o que realmente é, em nome da missão de fazer a Iurd chegar à Presidência da República.

Créditos
Folha de S. Paulo: Estratégia evangélica é ocupar o Executivo para chegar ao Judiciário, diz pesquisadora; Blog Plínio: Bispo Macedo quer tomar o poder e diz que foi Deus quem mandou.

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2 Comentários

  • Paulo Marcelo Farias Moreira disse:

    escondendo o que realmente é…a missão de fazer a Iurd chegar à Presidência da República.
    COMENTO.
    Qual partido não deseja o mesmo?
    Qual oficial não deseja chegar a General?
    O PT fez o mesmo conforme escreveu FÁBIO CAMPOS:
    A esquerda chegou ao poder vendendo uma esperança: a mudança da cultura política do País. Milhões compraram essa preciosa mercadoria. Era falsa. Era uma ilusão. Já em 2005, com o mensalão, o método ficou muito claro. Nada de mudar a política. Nada de transformar a atrasada cultura política profundamente arraigada no país. O caminho foi se adequar a essa cultura.

    • Plínio Bortolotti disse:

      Caro Paulo,
      Se você considerar a Igreja Universal um partido, ok, mas aí teríamos de incluir no Fundo Partidário um canal de televisão para cada um deles, para haver equilíbrio.

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