Plínio Bortolotti

O que aprendi no movimento estudantil

518 12

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 13/11/2016 do O POVO.

O que aprendi no movimento estudantil

Como os jovens de hoje eu também participei do movimento estudantil, fiz greves, fui a passeatas, corri da polícia. Sendo um rapaz latino-americano (sem dinheiro no banco etc.), formado por aulas de Educação Moral e Cívica, e por uma cultura machista, preconceituosa e limitadora – própria de cidades pequenas -, assombrei-me maravilhado com a diversidade da vida quando cheguei a São Paulo: rapazes e moças, talvez com história igual à minha, abrindo uma picada em busca de novos caminhos, em plena ditadura, no meio dos anos 1970.

O bonde da história estava passando diante dos meus olhos e somente alguém muito insensível não o teria agarrado, mesmo no papel de coadjuvante. Novos horizontes se descortinavam e eu queria ver, sentir, participar e aprender. Fui militante de uma organização trotskista, semiclandestina na época, a Convergência Socialista.

Vi nascer o movimento negro, os coletivos homossexuais e a retomada da luta feminista. Foi uma escola e nela muito aprendi, tanto com as pessoas que conheci quanto com as organizações e partidos que combatiam pela democracia e pela liberdade, cujos militantes lideravam as lutas – greves, ocupações de escolas, manifestações de rua, confrontos com a polícia: mais verbas para a educação, eleição direta, anistia.

Claro que hoje sou uma pessoa diferente, passei a desacreditar em algumas coisas e acreditar em outras. Não vejo mais, por exemplo, a revolução ali na esquina e nem creio no paraíso na Terra, prometido pelo comunismo. Entanto, não renego o passado (nem o idealizo), pelo contrário, dou gracias a la vida que me ha dado tanto; foi nesse tempo que abri os olhos para o mundo, afiei meu pensamento e tornei-me uma pessoa mais crítica; um tempo que ajudou a forjar o que sou hoje: não é grande coisa eu sei – tenho convicção e provas -, mas dá para o gasto.

Partidos e organizações políticas sempre intervieram no movimento social. Acusar os estudantes de serem militantes é querer cassar-lhes um direito democrático; considerar que são mera massa de manobra é menosprezar-lhes a inteligência. O movimento estudantil é e sempre foi uma escola de líderes. E presumir que somente a esquerda se organiza politicamente, crendo que a direita é formada por seres “apolíticos”, tecnocratas que querem apenas uma escola sem partido, ou qualquer outra gororoba, é ingenuidade ou cegueira ou coisa pior.

Pois bem, o governo Temer manda uma PEC ao Congresso, que vai cortar verbas da Educação e dos programas sociais (apesar das negativas oficiais); quer fazer uma reforma do ensino na base da medida provisória. Esperar o quê? Que os estudantes façam cara de paisagem, como se nada estivesse acontecendo? Que os partidos de oposição aceitem sem questionar?

Ora, foi um governo que assumiu por meio de um golpe, de uma conspirata, de uma manobra parlamentar – ou “legalmente”, pois à vista do Supremo Tribunal Federal (STF), vá lá. Mas onde está a legitimidade, onde estão os votos do mandatário que o autorizem a aplicar tais medidas na base da força?

Se os conspiradores políticos imaginaram que bastava assumir a Presidência para “pacificar” o Brasil, caíram no conto do vigário, quero dizer, do “mercado”, o principal indutor das políticas do governo Temer, que está sendo usado para fazer o serviço sujo.

Se vai conseguir, não se sabe – os dados ainda estão rolando -, mas o certo é que, ao fim do jogo, independentemente do resultado, o impopular Temer será peça inservível, e o “mercado” dar-lhe-á um chute na mesóclise e deixá-lo-á na rua da amargura.

NOTAS

Nova universidade
Sou coordenador de um programa de formação de novos jornalistas e noto mudança no perfil dos estudantes que chegam ao jornal. É cada vez maior o número de alunos de famílias remediadas, não brancos, e moradores da periferia que ingressam na Universidade Federal do Ceará (UFC).

Debates
No programa “Debates do Povo” (rádio O POVO/CBN), o tema da edição de 7/11/2016 foi a greve dos alunos da UFC. Isiane Silvestre representou o movimento de ocupação na universidade. Moradora do Conjunto Palmeiras, ela é doutoranda em Educação pela Faced-UFC. Em uma de suas intervenções, emocionada, falou da “luta” que uma pessoa de origem humilde precisa travar para chegar à universidade. Para ela, a PEC 241/55 vai dificultar mais ainda esse acesso.

Recomendado para você

12 Comentários

  • Diego disse:

    Primeiramente, o choro é livre.
    Finalmente a máscara caída e seguida de mi mi mi.
    Seguindo os passos de Túlio saiu definitivamente do armário.
    Parabéns, cada vez mais respeito o blogueiro.
    Diego

    • Plínio Bortolotti disse:

      Primeiro, que nunca tive “máscara”; segundo que esse negócio de armário deve ser outra das suas obsessões; terceiro agradeço pela leitura; abraço, Plínio

  • J Duarte disse:

    Primeiramente, parabéns pelo artigo e pela resposta, Plínio; este tipo de crítica, com ofensas, é de gente que sempre teve armários cheios e nunca foi necessário fazer algum esforço para conseguir algo.

  • Carlos Alberto Ribeiro disse:

    Plínio Bortolotti, parabéns pelo artigo. Hoje sou professor de Filosofia do E.M e militante da LSR-Liberdade, Socialismo e Liberdade-corrente interna do PSOL, dissidente da Convergência Socialista. Aprendi no movimento estudantil secundarista, quando estudante do Liceu do Conj. Ceará que lutar é a única saída para nós da classe trabalhadora. Aprendi na formação política do M.E e no CAEP-saudoso Gilvan Rocha, o que não aprendi nas aulas tradicionais na escola oficial. É isso. A vida nos pede coragem.

  • Olaferc disse:

    Permita-me compartilhar com você Plínio aquilo que Vi e Vejo com os movimentos estudantis.
    Fui aluno da escola pública por toda a minha vida.
    Apenas por seis meses no final de 1987 tive que ser transferido para uma escola particular. Pois após 3 meses de greve meus pais sacrificaram-se para manter minha educação. Fiz teste de seleção para o gloriosos Liceu do Ceará. Sim meus caros, o Liceu era tido como escola de excelência no Estado e tinha teste de seleção. No final da década de 80, quando estava saindo do ensino médio,o diretório estudantil ou centro acadêmico do Liceu era comandado pelo “Chicão” e o “Maia”. Meu irmão , cinco anos mais jovem que eu , foi aluno também do Liceu no final da década de 90. E pasmem o “Chicão” ainda comandava o CA do Liceu. Percebi então que as lideranças estudantis eram profissionais.
    Não vi muitas lideranças do ensino médio ou superior esbravejando quando em 2015 e inicio de 2016 a presidenta da república cortou aproximadamente 17 Bilhões de reais da educação. Vou repetir. 17 bilhões de reais.
    No último dia sete de novembro tive a oportunidade de ouvir os debates do povo e me chamou atenção o Prof Rui e a lider “grevista” ISI (permitam-me abreviar o nome).
    ISI não tem uma história diferente das pessoas que veem da classe média baixa. Ou seja, muita luta e dedicação para alcançar seus objetivos. Foi assim comigo, com ela e com muitos outros que se foram e que virão, logo, é apenas vitimismo quando ISI enaltece isto. Uma frase me chamou muita atenção foi quando ISI disse que não teria diálogo com quem defende a PEC. Mas vinha falando da importância de debates. ISI, estudante de doutorado – provavelmente bolsista (4000 reais) – tenta impor aos outros estudantes a sua visão de reserva de mercado (“vou ficar sem oportunidade de dá aulas”) e que os “intelectuais” pensam melhor para o bem do “coletivo”. Em contrapartida o Prof Rui foi sucinto e claro. As escolas Públicas não podem ser invadidas e a constituição federal permite invasão de escolas. Sindicalistas da UECE que acham “uma luta normal” seis meses de greves (férias) com salários pagos integralmente e que só prejudicaram os alunos é surreal. O Prof Rui por diversas vezes se fez claro: a imposição de idéias aos outros é mais que boçalidade é ditatorial .
    Os movimentos estudantis formaram “lideranças” profissionais, como o Chicão, que são caixas de ressonância de partidos políticos que ungidos “sabem” o que é melhor para o pobretão burro.
    Parece que como a presidenta e o partido que saiu estes movimentos estudantis já não lideram ninguém, pois tem que impor a força para tentar se fazer “representado’.

    Me perdoe, parece-me que você não gosta, mas plagiando o Diego: “O choro é livre”.
    Grato

    Olaferc

    Mito

    O sindicalista continuou falseando a verdade ao dizer que A PEC irá tirar dinheiro da educação e saúde, inclusive exemplificando o caso de catástrofes e que causará a morte das pessoas.
    É importante falar que os créditos extraordinários continuam sendo permitidos e podem sim ser realizados em casos de catástrofes. Vai estudar!!!!

    • Plínio Bortolotti disse:

      Caro que se assina “Olaferc”,
      que suponho ser um pseudônimo, se não for, me desculpe. De qualquer modo, não há problema em respeitar o anonimato, no caso. 1) Não sei qual a sua intenção em abreviar o nome da estudante, representante de grevistas da UFC, que se chama Isiane Silvestre, para ISI, talvez você quisesse fazer uma gracinha com o ISIS, ao mesmo tempo que tratou respeitosamente professor Rui, como ele merece; mas Isiane também é merecedora do mesmo respeito – você pôde observar que o próprio professor Rui, que é um sujeito educado, a tratou assim. E, cá entre nós, esse seu trocadilho não vale um tostão de mel coado, melhore. 2) A mais, copia uma besteira: “O choro é livre. Cresça rapaz, seja adulto. Honre os anos que você estudou no Liceu.

  • Olaferc disse:

    ERRATA
    quando ler

    “…Em contrapartida o Prof Rui foi sucinto e claro. As escolas Públicas não podem ser invadidas e a constituição federal permite invasão de escolas.”

    LEIA

    “Em contrapartida o Prof Rui foi sucinto e claro. As escolas Públicas não podem ser invadidas e a constituição federal NÃO permite invasão de escolas.”

  • Mário Andrande disse:

    Achei interessante o relato sobre a experiência do Olavo sobre o que ele chamou de estudante profissional. Fiquei me perguntando se o Chicão ainda é aluno secundarista. Seria o Ó.
    Participei na UFC da assembleia da ADUSFC e lá tinha um aluno grevista que pedia o apoio dos professores.
    Esse aluno disse: a maioria dos alunos que estão ocupando os departamentos são bolsistas e precisamos de abono das faltas.
    Então pareceu claro que o próprio MEC está financiando o movimento de ocupassão.

    Achei que ao chamar Isiane de Isi o Olavo quiz apenas, tentar, manter uma intima amisade que não deve ter. Comparado aqueles que tem um amigo chamado Cristiano e sucessivamente o chama de Cris, o que necessariamente não gera um desrespeito.

    No mais professor, keep calm and don’t panic.

    • Plínio Bortolotti disse:

      Caro Mário,
      1) Em todos os segmentos da sociedade de tudo, você deve ser de alguma categoria ou profissão, todos são perfeitos? O problema é ver a árvore e pensar que está-se vendo a floresta; 2) “Manter amizade” com quem não se tem, ora, façam-me o favor; 3) Ficar calmo no meio do tiroteio verbal é a minha especialidade.

  • Mário Andrande disse:

    Mas toda árvore dá frutos que logo suas sementes tornar-se-ão árvores e logo será uma floresta.Não é?
    No Justiniano de serpa acontecia o mesmo.

    Agora me pergunto, quando os melhores alunos, os CDF’S serão lideres dos estudantes em vez de serem alunos de engenharia e medicina?

    • Plínio Bortolotti disse:

      Não sei, Mário, seria preciso fazer um levantamento.
      Mas talvez você aprecie alguns importantes políticos que foram líderes estudantis, como ministro das Relações Exteriores, José Serra (PSDB), que foi presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) ou o senador Aloysio Nunes (também do PSDB), militante estudantil da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), militante do PCB (na época), foi guerrilheiro da ALN e participou de assalto a um trem pagador e também de um carro-forte. Ele foi também motorista e guarda-costas de Carlos Marighela.

  • DIEGO LUZ disse:

    Segundamente, keep calm and don’t panic. (plagiando Andrade)

    Caro Olaferc permita-me corrigi-lo, um bolsista de doutorado recebe em torno de R$2.200 e não R$ 4.000 como foi escrito.

    Talvez tenha cometido um equivoco a tratar Iziane por ISI, mas foi levado ao erro pelo blogueiro que grifou o nome da ativista de Isiane e não Iziane.

    No mais concordo na profissionalização dos estudantes.

    Carlos Alberto que não nos deixa mentir. Para quem não sabe LSR – Liberdade é: Liberdade (não combina com …) Socialismo e Revolução.
    Na carta de princípio do LSR tem escrito: 10 – …”Não descartamos a violência revolucionária como forma de se defender e derrotar as antigas classes exploradoras que agem com violência contra os trabalhadores. Mas as medidas de exceção devem ser aplicadas unicamente contra a minoria reacionária que ataca a revolução.”

    Os movimentos estudantis continuam os mesmos de Mariguella ( e seus motoristas) á Chicão.

    Sempre que leio o ouço alguém falando que lutou muito para chegar onde chegou me identifico, foi assim também comigo. Por isso não aceito vitimização.

    Vejo milhares de professores e estudantes descolados defendendo a educação pública do ensino médio, mas gostaria de conhecer professores de escolas públicas cujo os filhos estudam realmente em escolas públicas.

    Andrade se alunos bolsistas, como você relatou, são maioria nas invasões ilegais então é mais do que honesto deduzir que o MEC está financiando as invasões.

    No mais, em minha opinião, tudo se resume a politica partidária de professores e alunos e evidentemente choram por pura liberdade de expressão.

    “Por uma escola sem censura, partido todo mundo tem o direito de ter, ruim é quando um partido censura os demais, geralmente o demonizando.” Rui Martinho.

\

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *