Plínio Bortolotti

Cabos, capitães, coronéis e generais

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Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião do O POVO.

Cabos, capitães, coronéis e generais

O ministro da Cultura renunciou depois de revelar-se, recentemente, ter ele questionado a validade do Museu da História e dos Direitos Humanos, descrito como “manipulação da história”, em livro publicado em 2015. O museu fora inaugurado em 2010 pela ex-presidente, torturada durante a ditadura militar, e documenta abusos do período ditatorial (1973/1990).

Mas acalmem-se os fãs da ditadura, de cabos, capitães e generais candidatos. O caso se passou no Chile. O nome do ministro é Mauricio Rojas; da ex-presidente é Michelle Bachelet; e o ditador da época era o sanguinário Augusto Pinochet, cujas atrocidades são lembradas no museu. O conservador Sebástian Piñera, atual presidente chileno, aceitou a demissão do subordinado, fazendo uma declaração pública. Uma pequena lição aos reacionários brasileiros, que se imaginam conservadores.

No Brasil, que deixou de acertar contas com os criminosos do período militar (1964-1985), seus devotos continuam por aí, dando-se o direito de elogiar torturadores e de negarem a existência da ditadura.

No primeiro caso, Bolsonaro, candidato a presidente pelo PSL, homenageia Brilhante Ustra, um dos maiores torturadores do regime militar, um crápula que levava crianças para verem os pais sendo torturados. No segundo, o general Theophilo, candidato a governador do Ceará, afirma, sem corar, não ter havido ditadura no Brasil (O POVO, 21/8/2018). Para ele aconteceu um “contragolpe”, que teria evitado a implantação do comunismo (sugiro substituir por Ursal), seguindo-se uma “guerra suja” dos “dois lados”. O general admite “erros” de alguns militares “exacerbados”, mas o período, diz ele, justificava o “regime de exceção”.

O que não se entende é o seguinte: se os adversários da ditadura agiam fora da lei, os militares estavam autorizados a fazer o mesmo, torturando e matando, como ficou revelado em documento da CIA, com o próprio ditador da época, Ernesto Geisel, autorizando execuções extrajudiciais? Precisava o Exército brasileiro recorrer à “guerra suja” para enfrentar a armada Brancaleone da esquerda?

E o ex-governador Tasso Jereissati? Livra-se dos coronéis para atrelar-se a um general, que talvez tenha a cabeça mais atrasada que seus antigos adversários.

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4 Comentários

  • João Evangelista disse:

    Caro Plínio,a maioria dos militares são lambe-botas do grande Capital.Nosso baixo índice educacional contribui que parte da população apoie ideias conservadoras que no final voltam contra si.

  • Mirian Leite Barbosa Belchior disse:

    Plínio, sempre e lúcido e certeiro !!!!

  • Francisco Ricardo disse:

    Comentário perfeito quanto aos militares. Não precisa de retoques porque foi isso mesmo.
    Mas relato algo que me aconteceu quando tinha 12 anos. Era 1988 e ao estudar o tema na escola fui achincalhado pela professora que criticava a lei da anistia porque perguntei se ela anistiava também os anti ditadura que agiram fora da lei porque era tão ruim? Como era ingênuo não tinha entendido que isso era um tabu sem tamanho na nossa História. Hoje com 42 sei que de fato os militares foram e fizeram tudo isso que falam e que nada justifica o ocorrido. Mas nada é falado sobre o outro lado que não seja o heroísmo da luta contra a ditadura. Faltou as reais motivações e as barbaridades que também cometeram. Hoje tenho uma garota com 10 anos que em breve vai começar a estudar sobre isso e não acho correto passar só meia informação para ela. Por óbvio o farei tendo a clareza de que o conhecimento é quem dá a liberdade de expressão e de opinião, pilares da democracia, não a força ou a ideologia. Pena isso persistir até hoje!

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