Plínio Bortolotti

O garrote à imprensa

Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião, O POVO, edição de 5/12/2019

O garrote à imprensa

Semana passado o deputado André Fernandes (PSL) recusou-se a falar com jornalistas pois, entre eles, estava um repórter do O POVO. Ele acabara de sair de sessão do Subconselho de Ética da Assembleia Legislativa do Ceará, que lhe aplicara pena de suspensão de 30 dias do mandato.

Ele foi punido por ter acusado seu colega Nezinho Farias (PDT) de ser ligado a facções criminosos. A base da denúncia foi um projeto do deputado do PDT para a regularização de jogos eletrônicos, que André confundiu com Jogo do Bicho, dizendo que Nezinho queria “lavar dinheiro” de grupos criminosos.

Ao recusar-se a falar com este jornal Fernandes emulou o seu “mito”, Jair Bolsonaro, em permanente campanha autoritária contra a imprensa. Sua mais recente investida foi vetar ilegalmente a participação da Folha de S. Paulo em licitação pública para fornecimento de acesso digital ao noticiário da imprensa. (A propósito, nenhum jornal do Ceará consta da concorrência.)

O jornal paulista reagiu com duro editorial – “Fantasia de imperador” (29/11/2019) -, fazendo alusão à pouco recomendável vizinhança de Bolsonaro: “O Palácio do Planalto não é uma extensão da casa (…) que o presidente mantém no Rio de Janeiro. Nem os seus vizinhos na praça dos Três Poderes são os daquele condomínio”. Afirmou ainda que se o presidente não conhece os limites de sua atuação em um Estado Democrático de Direito, estes terão de ser-lhes impostos de “fora para dentro”, com se faz com “uma criança”.

O secretário de Comunicação Social da Presidência, Fábio Wajngarten, respondeu na própria Folha (2/12/2019), com o artigo “O infame editorial”, reclamando que o presidente fora desrespeitado – e que o jornal “não tem o direito de atuar como a Folha de S.Paulo atua”.

1) O presidente proibiu seus subordinados de lerem a Folha. O que fará com o secretário que nela escreve? Será demitido?

2) Estabelecer a forma como um jornal vai atuar somente será possível com um “novo AI-5”, uma ditadura, tão ao gosto do presidente e de seu círculo.

Mais, a imprensa não tem só o direito, mas o dever de atuar de forma a incomodar os poderosos.