Sincronicidade

Então lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15)

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Evidentemente Jesus existiu – assim como Ulisses e Zaratustra, e pouco importa saber se viveram fisicamente, em carne e osso, numa época precisa num lugar identificável. A existência de Jesus não é de modo nenhum comprovada historicamente. Nenhum documento contemporâneo do acontecimento, nenhuma prova arqueológica, nada de certo permite concluir hoje pela verdade de uma presença efetiva na articulação dos dois mundos abolindo um, nomeando o outro.

Não há túmulo, não há sudário, não há arquivos, com exceção de um sepulcro inventado em 325 por santa Helena, mãe de Constantino, muito dotada, pois também se deve a ela a descoberta do Gólgota e a do titulus, pedaço de madeira que traz o motivo da condenação. Um pedaço de tecido que a datação por carbono 14 atesta datar do século XIII de nossa era e que só um milagre poderia fazer com que envolvesse o corpo de Cristo mais de mil anos antes do cadáver putativo! Finalmente, três ou quatro vagas referências muito imprecisas em textos antigos – Flávio Josefo, Suetônio e Tácito -, certamente, mas em cópias feitas alguns séculos depois da suposta crucificação de Jesus e principalmente bem depois do sucesso de seus turiferários…

(…)

Quem é o autor de Jesus? Marcos. O evangelista Marcos, primeiro autor do relato das aventuras maravilhosas do denominado Jesus. Provável acompanhante de Paulo de Tarso em seu périplo missionário, Marcos redige seu texto por volta de 70. Nada prova que ele tenha conhecido Jesus em pessoa, é óbvio! Um contato franco e claro teria sido visível e legível no texto. Mas não se convive com uma ficção… Apenas se credita a ela uma existência à maneira do espectador de miragem no deserto que acredita na verdade e na realidade da palmeira e do oásis vislumbrados no calor abrasador. O evangelista conta então na incandescência histérica da época a ficção sobre a qual afirma toda a verdade, de boa-fé.

Michel Onfray

[Onfray, Michel.  Tratado de ateologia: física da metafísica. Tradução Monica Stahel. – São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007, p. 97 e  103]

2 Comentários

  • Paulo Horta disse:

    Não dar crédito às Escrituras como fontes históricas precisas, quer seja em relação a relatos geográficos, aspectos culturais e até mesmo e, principalmente, sobre a vida e existência de Jesus, se apresenta incoerente. Até onde concorda com Michel Onfray, Sr. Vasco?

    • Vasco Arruda disse:

      Caro Paulo,
      Com relação a escrituras sagradas, sejam de que religião for – isso inclui as escrituras da tradição judaico-cristã, ou seja, o Antigo e o Novo Testamento – tenho um ponto de vista pessoal: quase todas elas são em parte fundamentadas em fatos e, em parte, acrescidas de aspectos míticos. No caso específico da Bíblia, há uma boa dose de mitologia acrescida a aspectos fatuais. Portanto, concordo parcialmente com o ponto de vista expresso por Michel Onfray.
      Abraço,
      Vasco

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