Sincronicidade

Estética da viagem

Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta um pouco o véu do ser! Os trajetos dos viajantes coincidem sempre, em segredo, com buscas iniciáticas que põem em jogo a identidade. Também aí o viajante e o turista se distinguem e se opõem radicalmente. Um não cessa de buscar e às vezes encontra, o outro nada busca e, portanto, nada obtém.

Michel Onfray

[Onfray, Michel. Teoria da viagem: poética da geografia. Tradução de Paulo Neves. – Porto Alegre: L&PM, 2009, p. 75]

Leio Michel Onfray por puro deleite. Esse deleite teve início quando li, há dez anos, “A arte de ter prazer: por um materialismo hedonista”. Desde então, não parei mais de ler seus livros e é sempre com muita expectativa que aguardo cada  nova tradução sua para a língua portuguesa. Em minha estante somam-se, no momento, onze livros de sua autoria. Não preciso concordar com tudo o que ele diz, nem tampouco com sua visão de mundo, para tirar prazer de seus textos. Esse filósofo francês apenas dois anos mais velho que eu, mas que já inclui em sua bibliografia mais de 30 títulos publicados, escreve com uma fluidez e leveza tais que o leitor se deixa conduzir pelo texto sem qualquer esforço. Some-se a isso o fato de, pelo menos até o momento, ter encontrado no Brasil ótimos tradutores.

Michel Onfray nasceu na cidade de Argentan, na França, em 1959. Fez doutorado em ciência política e jurídica e lecionou num liceu particular de Caen de 1983 a 2002. Em 2002 criou a Universidade Popular de Caen, uma instituição de ensino heterodoxa onde ministra cursos frequentados por pessoas vindas de diversas partes do país.

Há duas semanas adquiri mais um livro seu, Teoria da viagem: poética da geografia. Quando soube da tradução desse livro, pensei logo em procurá-lo, motivado especialmente pelo título. Para quem ama viagens, como é o meu caso, é uma leitura do mais puro deleite. O livro é todo lindo, pura poesia da primeira à última linha. Li-o em apenas dois dias, pois, uma vez aberta a primeira página, não consegui mais largá-lo até chegar à última.

Michel Onfray

Para falar de seu tema, Michel Onfray se vale de duas figuras bíblicas que toma como tipos paradigmáticos: Caim e Abel. O primeiro era pastor de rebanhos, portanto, nômade; o segundo era lavrador, e por esse motivo, sedentário. Estão postos os dois tipos arquetípicos, dos quais diz o autor: “…o pastor de rebanhos e o camponês lavrador, o homem dos animais em movimento contra o do campo que permanece. Os andarilhos, os vagabundos, os errantes, os que pastam, correm, viajam, vagueiam, flanam, palmilham, já e sempre em oposição aos enraizados, aos imóveis, aos petrificados, aos erigidos em estátua. A água dos riachos, corrente e inapreensível, viva, contra a mineralidade das pedras mortas. O rio e a árvore” (p. 11).

A leitura do capítulo em que o autor trata do fato que pode assinalar o início de um projeto de viagem, me fez rememorar os dez anos que passei lendo Autobiografia de um Iogue, enquanto sonhava com o dia em que poria os pés na cordilheira do Himalaia. Escreve Onfray:

“A viagem começa numa biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, ela tem lugar ali, na claridade de razões antes escondidas no corpo. No começo do nomadismo, encontramos assim o sedentarismo das prateleiras e das salas de leitura, ou mesmo do domicílio onde se acumulam os livros, os atlas, os romances, os poemas, todas aquelas obras que, de perto ou de longe, contribuem para a formulação, a realização, a concretização de uma escolha de destino. Todas as seções de uma biblioteca conduzem ao bom lugar: o desejo de ver um animal extravagante, uma borboleta rara, uma planta quase inencontrável, um veio geológico numa pedreira, a vontade de andar sob um céu como o fez um poeta, tudo leva ao ponto do globo cujo sinal carregamos às cegas” (p. 25).  

“A leitura”,  prossegue o filósofo, “age como rito iniciático, revela uma mística pagã. O aumento do desejo desemboca a seguir num prazer refinado, elegante e singular”. Viajar proporciona um prazer de tal magnitude, que ele chega a propor uma erótica da viagem: “A existência de um erotismo da viagem supõe que se ultrapasse uma necessidade natural, a fim de suscitar a ocasião de regozijo artificial e cultural” (p. 26).  

Ninguém se iluda, no entanto, pensando que viajar por viajar é suficiente para proporcionar grandes conquistas, pois, conforme Onfray, confrontado com sua própria indigência numa terra estranha, dela o viajante só poderá tirar aquilo que sua própria condição existencial lhe faculta:  “Chegar a um lugar do qual tudo se ignora condena à indigência existencial. Na viagem, descobre-se apenas aquilo de que se é portador. O vazio do viajante gera vacuidade da viagem; sua riqueza produz a excelência dela” (p. 26).