E eu tão inédita/ Esperando ser aberta/ Como um livro sobre o apocalipse de um planeta/ que não este
Ana Beatriz Rangel
[A invenção do desejo / Ana Beatriz Rangel. – Belo Horizonte: Caravana, 2023. Poema: O livro das revelações, p. 10]
Diferentemente do que ocorre na Bíblia, ele começa pelo Apocalipse. Talvez porque a natureza do tema que lhe serviu como mote e inspiração seja, em última instância – apesar de Freud e Lacan –, tão indevassável quanto subversiva, o livro se faz reverso, começando pelo que se esperaria fosse a conclusão.
O verso inicial do poema que abre a publicação dá o tom do que o leitor terá pela frente: “Um rumor sideral atravessa-nos esta noite”, (O livro das revelações, p. 10). Palavras certeiras e cortantes. Porque se trata disso mesmo, está lá, na etimologia latina da palavra: De-sidera – algo que tem a ver com estrelas e constelações. Talvez por isso a palavra céu seja reiteradamente repetida, aparecendo em diversos poemas: “Tento segurar meus seios/ Como se eles fossem escapar/ Para dentro do céu” (Extrema-unção, p. 12); “Nada sobe aos céus/ Cair no corpo/ Cair em si/ Experimentar a paixão sem milagre” (Sábado de aleluia, p.13); “Os humanos lançam aos céus/ Sua risada/ Adivinhando a inveja que têm dos anjos” (A comédia humana, p. 18); “Procuro Júpiter no céu” (…) “Estou sempre mais atrasada que o céu/ Não encontro/ Apenas penso encontrar” (Órbita familiar, p. 46).
Passado o “rumor sideral” explicitado no verso que abre a primeira parte da publicação, intitulada O Apocalipse, a segunda parte, que tem por título O teatro, lhe contrapõe, logo no primeiro poema, “Um silêncio impregnado/ De ternura pornográfica” (Estreia, p. 24). A propósito, vale destacar que mesmo numa ocasião em que se deveria antever barulho, som, o que se faz presente é o silêncio: “A solidez desse silêncio/ Uma palavra lâmina/ Que recolhe a história” (Aplauso, p. 29).
Transpostos os umbrais do “rumor sideral” experimentado no Apocalipse, e aconchegada ao estranho “silêncio impregnado de ternura pornográfica” vivenciado n’O teatro, torna-se possível, agora, quem sabe, desfrutar de um suave descanso, ao termo da viagem: “Me alegro ao adormecer/ Sei que regresso aos meus” (Blefe, p. 37). E não poderia ser diferente, posto que A máquina a que se refere a terceira e última parte da publicação é a própria alma: “Um bom encontro/ Corpo a corpo/ E a alma então/ Torna-se máquina lírica” (A máquina, p.44). Que ideia instigante: a alma, “máquina lírica”, brotando do encontro de corpos.
Assim é A Invenção do desejo (Caravana, 2023), um livro que fala de “Pequenos trajetos/ E grandes viagens” (Carta a Ulisses, p.51). O livro, dividido em três partes, O Apocalipse, O teatro e A máquina, é composto por quarenta poemas. Ao concluir a leitura, me perguntei: seria este um número casual ou haveria, nisso, também um aspecto simbólico? Inevitável a associação aos quarentas anos que durou a travessia do povo hebreu pelo deserto e aos quarenta dias durante os quais Cristo jejuou, realizando também sua travessia pelo deserto da alma. Parece-me vislumbrar algo em comum com a travessia realizada, quiçá, também pela autora, aqui transmutada em poemas.
Ontem à noite, ao perceber o quanto A invenção do desejo está impregnado de uma linguagem em que o sagrado se faz tão presente, respingado com toques míticos e oraculares, não pude me furtar à tentação de pegar a Bíblia e ler alguns trechos do Apocalipse. Após a leitura bíblica, não tendo ainda concluído a redação deste texto, me ocorreu uma inusitada ideia: e se eu lesse os poemas de trás pra frente, começando pelo último e terminando no primeiro? O que me provocou essa ideia foi a releitura do poema Gênesis, que, ao contrário do que se poderia esperar, nãos está posto no início, mas na última parte do livro. Mais um caso de reversão, já apontada por mim no primeiro parágrafo deste texto. Assim procedendo estaria eu, talvez, intentando uma possível reversão da reversão operada pela autora? Não resisti à tentação e me lancei à leitura. Mas, por algum motivo que desconheço, antes de chegar à metade do livro, comecei a sentir um estranho incômodo e desisti. Concluí que ele deveria ser lido na ordem em que os poemas foram publicados.
Dediquei alguns dias dessa semana à leitura e releitura de A Invenção do desejo. Uma obra que se presta a muitos olhares e interpretações. Um livro que é, penso, fruto do extravasamento poético que pode resultar quando “O corpo pesado de linguagem” (Estreia, p. 24), já não suportando o silêncio, dá passagem à palavra, conferindo-lhe outro corpo, sob a forma de poesia do mais alto quilate. Afinal, “Em silêncio nenhum deus nasce” (Gênesis, p. 45).
A autora, Ana beatriz Rangel, é jornalista, pesquisdora, oraculista e doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Nasceu em Campos dos Goytacazes em 1991 e desde 2009 reside no Rio de Janeiro. Lançou em 2016 seu primeiro livro de poemas É preciso dançar na língua dos predadores. Atualmente pesquisa, escreve e ministra cursos sobre a relação entre a palavra poética e os saberes oraculares.
Concluo estas breves impressões de leitura transcrevendo alguns versos de um poema que, a meu ver, sintetizam de forma lapidar aquilo de que se ocupa Ana Beatriz Rangel nos seus inspirados poemas, o desejo – e que, por extensão, podem se aplicar também à sua poesia: “Recomenda-se não olhar diretamente para o sol/ Convém diante do sol /Proteger a escuridão” (Feche os olhos, p. 22). Palavra de oraculista.
Encontre a autora no Instagram: @apalavrabeatriz.



